Manga (1937-2025)

Manga, o sinônimo de goleiro

Por JOSÉ RENATO SATIRO SANTIAGO

Haílton Corrêa de Arruda nasceu na cidade de Recife em 26 de abril de 1937.

Passou sua infância em um bairro pobre da capital pernambucano, onde contraiu varíola. A doença deixou marcas em seu rosto e fez com que seu apelido virasse Manga, por conta dos “buracos” do tamanho de mangas. Certamente um exagero.

Ainda menor de idade, começou no futebol jogando no Sport Recife, onde desde cedo mostrou seu potencial. Em 1954 conquistou o estadual juvenil sem tomar um gol sequer, o que chamou a atenção do técnico Gentil Cardoso que o promoveu para a equipe principal. A titularidade só viria a partir de 1957, após se destacar durante excursão da equipe rubro negra à Europa e ao Oriente Médio. No ano seguinte foi titular da equipe que conquistou o campeonato pernambucano.

Em 1959, foi contratado pelo Botafogo do Rio de Janeiro, por indicação do jornalista João Saldanha. Sua chegada foi cercada de muita desconfiança. Manga não somente se tornou titular como passou para a história do clube como o maior goleiro de todos os tempos. Convocado para a seleção brasileira participou da Copa do Mundo de 1966, quando chegou a substituir ninguém mais que Gylmar dos Santos Neves.

Dono de um estilo arrojado, não tinha medo te meter suas mãos, imensas, juntos aos pés dos adversários, habito que acabou por deformar quase todos os dedos das mãos. Era também ótimo na reposição de bola e costumava abrir mão da formação de barreiras em cobranças de faltas, segundo ele, para poder encarar o cobrador “de frente”.

Muito simplório, seu nome frequentemente está presente em engraçadas situações. Em uma delas, Manga estaria dirigindo seu carro, quando avistou o centroavante Radar, que atuava no rival Flamengo, no ponto de ônibus. Solicito, ofereceu carona ao rubro negro e seguiu em direção ao seu destino, em alta velocidade. Tudo ia bem, até que foi parado por um policial, que lhe deu uma multa por excesso de velocidade. Manga retrucou como ele sabia disso. O policial respondeu que o radar tinha “dedurado”. Aborrecido, Manga se virou ao rubro negro Radar e o expulsou do carro imediatamente.

Em outra oportunidade, ao compartilhar com os colegas que só tinha votado uma única vez, quando ainda vivia no Recife, foi perguntado em quem tinha votado. De imediato respondeu que não sabia, pois tinha recebido a cédula de votação já preenchida e que o “coronel” da cidade tinha proibido que fosse visto o voto, uma vez que era secreto.

As polêmicas também estiveram sempre próximas dele. Pelo fato de costumeiramente ter grandes atuações irretocáveis frente ao Flamengo, antes dos clássicos, chamava a imprensa para afirmar que “o leite das crianças já estava garantido”, o que gerava a irritação dos torcedores rubros negros.

Em outra oportunidade, poucos dias antes da ultima rodada do campeonato carioca de 1967, teve seu nome envolvido em suposto suborno oferecido pelo dirigente do Bangu, Castor de Andrade, contra quem o Botafogo disputava o título estadual. Tal fato acirrou os ânimos do jornalista e botafoguense, João Saldanha, o mesmo que o indicara para o alvinegro, e que durante toda a transmissão da partida final, passou a questionar sua atuação. Embora o Botafogo tenha vencido a partida por 2 a 1, e conquistado o título, Saldanha não estava convencido da inocência do goleiro e invadiu a sede alvinegra, dois dias depois, com arma em punho em direção ao goleiro. Assustado, Manga precisou pular um muro de quase três metros para escapar do tiro dado pelo jornalista.

Com a camisa alvinegra, conquistou quatro campeonatos cariocas em 1961, 1962, 1967 e 1968, três torneios Rio-São Paulo em 1962, 1964 e 1966, uma Taça Brasil em 1968, além de inúmeras outras competições e torneios.

Após quase 10 anos na equipe carioca, foi contratado pelo Nacional de Montevidéu, a convite do técnico Zezé Moreira, onde também marcou história. Foi tetracampeão nacional em 1969, 1970, 1971 e 1972, da Taça Libertadores e do Mundial Interclubes em 1971. Até gol, Manga marcou, ao repor uma bola em campo, seu chute foi tão forte e alto que acabou encobrindo o goleiro adversário.

Em 1974 estava de volta ao Brasil para defender as cores do Internacional, onde também se tornou um dos maiores nomes da história da equipe. Fez parte de um dos maiores times formados pelo Colorado, sendo tricampeão estadual em 1974, 1975 e 1976 e bicampeão brasileiro em 1975 e 1976, vencendo as Bolas de Prata, tradicional premio promovido pela revista Placar, nos dois anos consecutivos, como o melhor goleiro do campeonato brasileiro. Para muitos colorados, também foi o maior goleiro da historia do Internacional.

Chegando aos 40 anos, considerado velho, foi liberado pela equipe gaúcha e contratado pelo pequeno Operário de Campo Grande. Coube a Manga provar, novamente, que todos estavam errados. Foi campeão estadual pelo Operário e foi um dos grandes responsáveis pela impressionante campanha da equipe que chegou as semifinais do campeonato brasileiro de 1977, feito até hoje inédito para um time da região Centro Oeste.

Novamente em alta, em 1978 foi jogar no Coritiba, sendo campeão estadual, e no ano seguinte, já estava de volta a Porto Alegre, desta vez para defender o grande rival do Internacional, o Grêmio, onde voltou a ser campeão gaúcho, em 1979. Sua ida para o Grêmio mudou a relação existente entre os rivais. Desde então, jamais um jogador do rival era contratado pelo adversário, e vice versa, em um acordo tácito, que teria sido quebrado pelos tricolores, que alegaram o fato, por conta do jogador estar atuando no Coritiba, e não no Internacional. A partir dali, as transferências entre os rivais, embora sempre polêmicas, passaram a ser frequentes.

Acabou a carreira na equipe equatoriana do Barcelona de Guayaquil onde foi campeão nacional em 1981.

Manga teve uma carreira tão excepcional e marcante que sua data de aniversário passou a ser considerada como o Dia do Goleiro, algo único e certamente justo, pois seu nome é sinônimo de goleiro.


*Texto publicado originalmente em 13/12/2020 para a site MEDIUM

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