Nazismo, política e biologia

De O GLOBO

Por NATALIA PASTERNAK

O mau uso da ciência para fomentar ideias racistas faz parte da história da humanidade

Em 27 de janeiro, o mundo celebra o Dia Internacional em Memória das Vítimas de Holocausto. Neste 2025, completam-se 80 anos desde o dia em que prisioneiros do maior campo de extermínio do regime nazista, Auschwitz-Birkenau, foram libertados. A data reforça o lema de memória do Holocausto “nunca esquecer”, para evitar que atrocidades como esta sejam repetidas. Mas o problema talvez não esteja na memória do passado, e sim na relativização do presente.

O racismo científico que resultou no Holocausto já existia antes do nazismo dominar a Alemanha, e continuou existindo depois que ele foi derrotado. E mesmo na época de Hitler, não era uma ideia exclusivamente alemã. É fácil crer que eugenia e o extermínio de “raças inferiores”, como judeus, foi uma perversão extraordinária, que não teria lugar numa democracia. A memória, neste caso, precisa ser menos seletiva.

O próprio Hitler escreveu, em 1925, em seu livro-manifesto Mein Kampf: “Há atualmente um Estado onde pelo menos tentativas débeis de uma concepção melhor [de direitos de cidadania] são perceptíveis. Esta não é, claro, nossa modelar república alemã, mas a União Americana”. Hitler referia-se ao Estado da Califórnia, que desde 1909 até 1979, esterilizou aproximadamente 20 mil pessoas. A justificativa era controlar a população de “indesejados”, como imigrantes, mães solteiras, pessoas não brancas, pessoas com doenças mentais ou deficiências.

E para quem acha que eugenia é coisa do passado, vale pesquisar o escândalo que emergiu em 2020 em um centro de detenção de imigrantes administrado pela iniciativa privada na Georgia (EUA). Uma enfermeira denunciou negligência médica e procedimentos de esterilização em imigrantes, muitas vezes sem consentimento ou mesmo conhecimento.

O mau uso da ciência para fomentar ideias racistas faz parte da história da humanidade. Infelizmente, nunca faltaram cientistas para dar um verniz tecnocrático à desumanização de grupos de pessoas. Rudolf Hess, vice de Hitler e um dos líderes do partido nazista, dizia que “nazismo é biologia aplicada”. Muito antes da “solução final” e dos campos de extermínio, a Alemanha nazista instituiu os “tribunais sanitários de hereditariedade”. Médicos, geneticistas, psiquiatras e antropólogos participaram rotineiramente destes tribunais para decidir quem deveria ser esterilizado. A justificativa, novamente, era fazer uma limpeza genética na população alemã. No início, os tribunais se preocupavam, assim como na Califórnia, com pessoas com condições físicas e mentais consideradas “indesejadas”. Depois foram incorporando o judeu como raça inferior, e então cientistas começaram a dar pareceres sobre características físicas típicas de judeus. Havia, por exemplo, especialistas no formato das orelhas.

Se já é chocante pensar que tudo isso aconteceu há apenas 80 anos com judeus, ciganos, pessoas com deficiência e população LGBTQ, é inadmissível conceber que continue ocorrendo hoje com imigrantes. Pior ainda é encarar o novo decreto do Presidente Trump para revogar o direito de nascença para a concessão de cidadania americana. Remete tristemente à frase de Hitler em Mein Kampf, feliz em saber que os EUA ao menos, estavam fazendo algo de concreto para “limpar” sua cidadania.

Os Estados Unidos sempre foram um país de imigrantes, e o direito da cidadania para quem nasce em território americano está no coração da própria ideia do que são os EUA. Retirar isso, desumanizar e despir imigrantes de seus direitos humanos básicos não fica muito atrás da eugenia nazista. “Nunca esquecer” precisa ser ampliado para “nunca relativizar”.

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