As mentiras no Parque São Jorge e no Corinthians

De O GLOBO

Por RODRIGO CAPELO

O Corinthians não é financeiramente sanado — com dívida sob controle, contas em ordem e capacidade de investimento

O futebol vive da galhofa. Neymar jogaria a Copa de 2002 no lugar de Rivaldo? O próprio alega que sim, o substituído diz que não, todo mundo aparece para opinar. E como opinião no esporte se baseia em nada e vai para lugar nenhum, não faz mal cada um defender a sua até a morte. É até divertido. Cito esse exemplo porque foi o tópico mais debatido do fim de semana — nada contra, nem a favor. Mas há problemas. Como o futebol vive da galhofa, alguns se aproveitam.

Voltemos ao caso do ainda presidente do Corinthians, Augusto Melo, cujo impeachment será votado novamente na noite de hoje. Em setembro, acuado politicamente e pelo mau futebol que o time vinha apresentando em campo, o dirigente contratou Memphis Depay. Como precisava também aparentar juízo, a diretoria dele vazou que o custo do atacante seria de R$ 70 milhões por todo o contrato, e que ele seria bancado pelo patrocinador. Pois bem.

Nesta última semana se soube, ao que recebi as cópias de todos os seus contratos, que o valor é muito maior do que o vazado. Líquidos e garantidos, são R$ 82 milhões. Com pagamentos por metas esportivas, pode passar de R$ 120 milhões. Com a carga tributária, mais algumas dezenas de milhões de reais são acrescidos. E o contrato da casa de apostas que pagaria a conta não arca nem um terço dela. Vê-se, portanto, provado: a diretoria havia mentido.

Por que dirigentes mentem? Porque o futebol vive da galhofa. Porque, para a sorte de Augusto, Depay encaixou no time e se identificou com a torcida. E então passa a ser uma questão de opinião. Pergunta-se ao público e aos opinadores profissionais se, diante da nova informação, a contratação tem sido uma boa para o Corinthians. Mas essa é a pergunta menos relevante. A questão não é se vale, quatro meses depois, mas por que se correu tamanho risco, na época.

É prudente que se comprometa, estimemos, R$ 150 milhões em dois anos de contrato por um único jogador? Somente Depay é capaz, no mundo, de executar o papel técnico e tático que ele recebeu no time alvinegro? Não havia como negociar melhores termos para o contrato? Essas perguntas se mantêm pertinentes até hoje. A julgar pela mentira a respeito do custo, você percebe que nem a diretoria tinha convicção nas respostas. Caso contrário, diria a verdade.

O Corinthians não é financeiramente sanado — com dívida sob controle, contas em ordem e capacidade de investimento. Se fosse, competiria com Flamengo e Palmeiras sem tanto sofrimento, pois torcida e receita o clube tem. O Corinthians é o clube cuja diretoria vai ao torcedor pedir dinheiro em vaquinha para pagar pelo estádio. É a diretoria que dá calote, que é investigada por desvio de dinheiro corintiano, que muda de versão a cada mudança de clima.

Depay não foi a única contratação. Outros custos foram somados por Augusto ao caixa, enquanto ele faz tudo para se manter no poder. A dívida continua a aumentar. Como ele pegou um clube que já vinha financeiramente arrebentado pelos antecessores, a gravidade aumenta, até se tornar insustentável. Êxodo de atletas, calote para todo lado, punições de entidades esportivas. Fora as questões de ordem legal, que vêm sendo apuradas pelas autoridades.

Não tem problema se o futebol se diverte da galhofa. Só não dá para viver dela o tempo inteiro, porque tem dirigente contando com a conivência dos galhofeiros para sangrar as instituições.

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