A ‘bidenização’ de Lula

Da FOLHA
Por EDUARDO JOSÉ GRIN e MARCO ANOTONIO CARVALHO TEIXEIRA
Processo de comparação com presidente dos EUA em razão de idade avançada e problemas recentes de saúde é estratégia maquiavélica de poder
Maquiavel mudou a análise da política ao afirmar que o importante é sempre a verdade dos fatos e não o que se espera que deveria ocorrer na ação dos governantes, sobretudo considerando o que seria um comportamento pautado por valores morais e éticos tomados socialmente como corretos.
Os recentes questionamentos acerca da saúde do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —que não são novos, pois já ocorreram com menor ênfase durante as eleições de 2022— tornaram-se, após sua abrupta internação seguida de cirurgias, uma questão maquiavélica. A hospitalização e os procedimentos cirúrgicos emergenciais suscitaram narrativas das consequências políticas com o objetivo de criar um clima de comoção que o afastasse do jogo eleitoral de 2026.
O ponto aqui é a “bidenização” do fato e decorre da comparação do problema de saúde enfrentado por Lula com a situação vivida pelo presidente norte-americano, Joe Biden, 82, que, neste ano, foi compelido a desistir de sua candidatura à reeleição.
Os dois episódios acabam sendo tomados como exemplo de uma só questão: a idade avançada de ambos os presidentes os torna frágeis, para não dizer incapazes, de seguir governando seus países.
Popularmente, o prazo de validade política se esgotou. Todavia, as diferenças factuais nos dois casos são enormes. Biden apresenta sinais evidentes de perda de vitalidade, enquanto Lula teve um acidente doméstico que deixou sequelas. É nessa brecha que entram as narrativas e o “wishful thinking” sobre o que deveriam ser as consequências políticas diante dos fatos.
A primeira reação veio da entidade “mercado”, que paira sobre os mortais com sua suposta autoridade para gerar advertências. O preço de ativos financeiros, como o dólar, caiu diante da possibilidade que a piora no quadro de saúde de Lula abrisse a janela de oportunidade para um governo mais pró-mercado se o vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), assumisse. Contudo, a distância entre o que deveria ser e a narrativa decorrente (a possibilidade do afastamento definitivo de Lula da Presidência em uma narrativa “bidenizada”) e o fato (o presidente brasileiro, até onde se sabe, não enfrenta nenhum problema sério de saúde) é enorme.
Como disse um estrategista importante do setor, o mercado não é antiético ou imoral, mas ele é aético e amoral. Mas o mercado foi maquiavelicamente traído por sua narrativa do que deveria ser a ação correta do governo (política fiscal responsável para não elevar a dívida pública) e a verdade dos fatos (a queda nos preços dos ativos na expectativa de piora do quadro de saúde do presidente).
Antes de considerar os fatos, escancarou sua aposta em um cenário baseado na concepção ética na qual os fins importam (um governo alinhado com a visão do mercado) independentemente dos meios (o pensamento desejoso, ainda que não formulado de forma consciente, da deterioração da saúde do presidente).
A “bidenização” de Lula também deriva de uma antecipação do futuro: se eleito em 2026, ele terminará seu segundo mandato com 85 anos. O vaticínio dado pelos adeptos da virilidade masculina como demonstração de capacidade é claro: será incapaz de governar o país. Sim, a idade do presidente é um fato, mas as consequências sempre consideradas negativas são narrativas desejosas.
Seria como dizer para as populações de democracias como Itália e Irlanda, cujos presidentes têm mais de 82 anos, e a Noruega, cujo rei tem 87, que seus líderes políticos são incapazes e deveriam renunciar. Isso para não falar da rainha Elizabeth 2ª e seu longo período como chefe de Estado. Na política, não se determina idade para o encerramento do ciclo político. Avançar juízos de valor sobre o fato em si (atualmente as pessoas envelhecem com melhores condições de saúde) e a narrativa (a idade inabilita as pessoas para a política) é outra armadilha maquiavélica sempre usada de forma oportunista pelo lado que deseja o poder.
