Os dias derradeiros de Augusto no Corinthians

De O GLOBO

Por RODRIGO CAPELO

Conselho Deliberativo do clube vai votar pelo pedido de impeachment do atual presidente

Faltam poucos dias para que o Corinthians decida o futuro de seu presidente, Augusto Melo — se ele fica ou sai do cargo para o qual foi eleito até o fim de 2026. Na quinta-feira, o Conselho Deliberativo vota o pedido de impeachment. Se a maioria dos conselheiros decidir que ele deve ser destituído, o dirigente será afastado temporariamente e aguardará votação dos sócios. E, pelo jeito, há chance de que aconteça. Basta notar a quantidade de defesas que surgiu.

A mais esquisita partiu dos jogadores. Atletas não costumam participar da vida política do clube para nada, nem para defender seus próprios interesses, que dirá para manifestar apoio a cartola. Mas os do Corinthians publicaram comunicado em rede social para defender o presidente e a diretoria de futebol. Será o ressurgimento da Democracia Corinthiana? Da participação dos ídolos nas decisões? Difícil crer, quando a atuação só surge em tal contexto.

Eis outros sinais de que a situação está preocupada com a votação de quinta. Primeiro: sai na imprensa o rumor de que Memphis Depay cogita deixar o Corinthians caso Augusto seja afastado. É pra botar medo no torcedor e no conselheiro. Segundo: a maior organizada do time, que dá apoio político e simbólico ao mandatário, publica vídeo em defesa dele. Terceiro: o próprio presidente usa as redes para se blindar. Defesa demais, o alvo está evidente.

Nos dias derradeiros do mandatário alvinegro, a tática adotada tem sido substituir argumentos contrários por versões favoráveis. Não por acaso, tenta-se espalhar a ideia de que os resultados do time serão prejudicados pela derrubada do presidente, que ele será punido sem ter direito a defesa e que há em andamento uma tentativa de golpe — todos termos contidos nas mensagens de apoio e nas próprias manifestações públicas do cartola.

Confesso que ainda me espanto com o esquecimento do fato que gerou toda a história. O Corinthians firmou um patrocínio com a Vaidebet e determinou que pagaria comissão à empresa de um aliado de campanha do presidente. A Rede Social Media Design receberia R$ 25 milhões. Alex Cassundé, o aliado, disse à Polícia Civil que não intermediou o patrocínio e que foi colocado no contrato pela diretoria do clube. Ou seja, ele não prestou serviço algum.

Passaram-se meses desde então, a guerra nos bastidores foi deflagrada, e muita gente deixou para lá, ou nem sequer entendeu, o que importa. Se o Corinthians perderia R$ 25 milhões em comissão para um intermediário que não prestou o serviço, o dano já havia sido causado. A polícia vai determinar em seu inquérito a gravidade, se houve crime nas transferências financeiras, mas, mesmo que não haja, a comissão era indesejada e lesaria a instituição.

Lacunas foram deixadas para trás. Augusto prometeu auditoria a respeito do caso, e, pouca gente sabe, a diretoria do Corinthians chegou a contratar investigação interna da EY. Antes que a empresa pudesse concluir a apuração, o clube cancelou o serviço. Por quê? E a auditoria? Problema é que, em vez de esclarecer a história com respostas, ou pelo menos as perguntas certas, muita gente se perde com cascatas como: Depay deixará o Corinthians se Augusto cair?

Os dias derradeiros de Augusto Melo no Parque São Jorge devem ser quentes. Para a sorte dele, o time embalou em campo e na tabela. Para o azar, a votação no Conselho Deliberativo nem sempre está ligada ao calor da opinião pública — seja lá o que pensa o corintiano.

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