Domingo de eleições

Da FOLHA

Por CÁRMEN LÚCIA

O voto é também o dever com o outro; sem ser exercido o direito dá-se ao esquecimento, e há sempre algum aventureiro a aproveitar-se do vazio

Voto é decisão. Decisão é poder. Ao afirmar o direito de voto do cidadão, a Constituição do Brasil de 1988 entregou a cada brasileira e a cada brasileiro com mais de 16 anos a livre decisão sobre os seus governantes e legisladores.

Não foi conquista pouca, nem de menor importância o direito de votar. Gerações desenvolveram-se no sombrio espaço do não voto. Mulheres não votavam até a década de 30 do século 20. Analfabetos também não votavam até 1988 no Brasil.

Quem não tem luz própria tem medo de luz. E a democracia, que se exerce também e superiormente pelo voto, espalha a clara liberdade por toda parte. Há quem dela não goste. No espaço das liberdades, as atrocidades do ferro e da mordaça não se aceitam nem subsistem.

Assim é que, em período de carência democrática, governantes não eram representantes, e governados não se faziam representar. Chegava-se a ouvir a voz estridente do desprezo estúpido dirigido à cidadã ou ao cidadão a proclamar “eu sei o que é melhor para você” ou, o que também se repetia, “ele/ela não sabe votar”. Somente os que já estavam no poder poderiam ter poder.

Aos 36 anos do início de sua vigência, a Constituição do Brasil entregou-se à cidadania e ajudou em sua construção. E ela se aperfeiçoa no voto. No gesto cívico que se repete a cada eleição, garantindo a dignidade política de cada eleitora, de cada eleitor. Assim, o poder democratiza-se sem incertezas, sem desconfianças, sem sobressaltos.

Também sou eleitora. Quase como se me lembrasse afirmativa, sou brasileira. Não apenas reclamar, mas reivindicar. Não apenas aperrear, senão propor políticas em espaços de audição política. Ser parte do Brasil e partícipe do processo de sua necessária e permanente formação.

O voto como direito individual é também o dever com o outro. Democracia é responsabilidade e compromisso que se afirma com a sociedade.

Quem esbarrou, histórica e mais recentemente, em obstáculos ao voto sabe o sabor de liberdade que ele faz sentir. Na solidão da cabine, a urna que garante o sigilo do voto é cúmplice e companheira. Ninguém alicia o votante de forma definitiva, porque à sua decisão ninguém tem acesso nessa hora, nem jamais dele saberá se não for pela sua declaração, sempre livre para a expor ou não.

À mulher foi negado o direito ao voto, como ainda é dificultado o acesso a ser votada em iguais condições às dos homens. Torpezas antidemocráticas e preconceituosas de seres menores. Só teme eleição quem não tem voto. Ditaduras estatais ou particulares silenciam as vozes que possam desafinar de seus interesses. Cidadania gosta de eleição e vota. Em quem bem entender, livremente.

Hoje é domingo de eleições, e a cidade dorme com a urna, esperando o amanhecer da próxima gestão municipal. A cidadania tece a alvorada. Nada está pronto, pois a democracia é feita no processo permanentemente em curso.

A representatividade há de emergir da cabine de votação. Tudo está preparado, aguardando a figura central que tudo configura e faz: a cidadã e o cidadão moldam seu presente, plantam seu futuro. É que democracia não é fácil e permite escolhas de toda sorte, até algumas que são falta de sorte. Mas garante a livre opção pelo que se quer, desde que dentro das normas legais. Afinal, é o Estado democrático de Direito que norteou e continua a assinalar o caminho da arquitetura de uma sociedade livre, justa e solidária, como posto na Constituição.

A história democrática dos povos —e do Brasil também— felizmente amarelou a página do não voto daqueles que, como as mulheres e os analfabetos, dentre outras pessoas, não podiam votar. Mas a história é viva e põe-se para os que não deixam passar em branco seus direitos conquistados. Sem ser exercido o direito dá-se ao esquecimento e há sempre algum aventureiro a aproveitar-se do vazio.

Hoje é domingo de eleições. Dia de cada cidadã e de cada cidadão saber de si e de todas as pessoas que formam o grande povo brasileiro. Dia de cantar com Gil, “quem sabe de mim sou eu, é claro. Pra você que me esqueceu, aquele abraço”. O voto é abraço até em quem já nos esqueceu! Lembranças do Brasil que vale a pena!

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