Ataque indica paz mais distante no Oriente Médio

Da FOLHA
EDITORIAL
Explosões de pagers do Hezbollah elevam risco de escalada do conflito; Netanyahu não quer limitar campanha militar a Gaza
No filme “Munique”, lançado por Steven Spielberg em 2005, inexperientes agentes israelenses se esforçam para instalar bombas em telefones e camas de forma a matar seus alvos, não toda a vizinhança.
Os rivais eram os líderes palestinos envolvidos no planejamento do infame ataque terrorista ocorrido na Olimpíada da cidade que dá nome à película, em 1972. Ao longo dos anos, as técnicas se refinaram, como quando um celular explodiu a cabeça de um notório fabricante de bombas do Hamas em 1996.
Na terça (17), o mundo testemunhou mais um ataque do gênero, com a detonação de talvez 3.000 pagers que haviam sido comprados pelo Hezbollah cinco meses atrás de uma empresa em Taiwan. Um dia depois, foi a vez de walkie-talkies e até painéis solares irem aos ares.
A sofisticação tecnológica dos atos, que mataram dezenas de pessoas e deixaram mais de 3.000 feridas no Líbano, contrasta com a obsolescência dos meios em que as bombas foram plantadas.
Estrelas nos anos 1980 e 1990, os pagers hoje são fósseis vivos na era dos smartphones, podendo receber tão somente simples mensagens de texto.
Isso era um trunfo para o Hezbollah, que os adotou após ter lançadores de mísseis e foguetes alvejados por drones de Israel que seguiam o sinal de GPS de celulares grampeados. A mesma lógica vala para walkie-talkies.
Israel não admitiu a ação, mas é suspeito óbvio. O problema é que a engenhosidade tem custo análogo ao descrito por Spielberg no filme: além de vítimas inocentes, a escalada potencial do conflito.
Após quase um ano da guerra em Gaza, que começou como reação ao ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023, contam-se mais de 40 mil mortos. Tudo indica que o premiê Binyamin Netanyahu quer mais.
Na mesma terça do ataque, ele incluiu na lista oficial de objetivos atuais o retorno seguro de possíveis 80 mil israelenses que deixaram suas casas no norte do país.
Nesta quarta (18), seu ministro da Defesa falou em uma “nova fase da guerra”, com a “gravidade voltada a norte” —no caso, a fronteira israelo-libanesa.
Tanto o Hezbollah quanto seu patrono, o Irã também apoiador do Hamas, têm sido comedidos, exceto em reações pontuais ocorridas em abril e agosto. Todos temem uma guerra ampla.
Poucos discordam de que um enfrentamento mais direto entre o Estado judeu e o Hezbollah é inevitável. Mas o esforço de Netanyahu para agradar a sua base de apoio extremista, visando ficar no poder, amplia os riscos.
