Em seu aniversário, Israel tem mais a repensar do que celebrar

Da FOLHA

Por DIOGO BERCITO

País enfrentou vários desafios desde sua criação, há 76 anos, mas poucos momentos foram tão críticos quanto o atual

Israel enfrentou diversos desafios desde a sua criação em 1948, de guerras a atentados. Ao longo das décadas, também, convive com questionamentos sobre seu direito de existir no que era antes o mandato britânico da Palestina. Poucos momentos do Estado judeu —que na última terça (14) completou 76 anos— foram tão críticos, porém, quanto o atual.

Sete meses atrás, os ataques terroristas do Hamas deixaram cerca de 1.200 mortos no sul de Israel. A facção também fez 252 reféns, dos quais 138 ainda não foram libertados. Do total mantido em cativeiro, acredita-se que 36 tenham sido mortos. Em resposta, a ofensiva em Gaza já deixou mais de 35 mil mortos. Tel Aviv tem de lidar com as acusações de realizar uma guerra punitiva e desproporcional que atinge civis.

Soma-se a isso uma outra frente conflituosa, a fronteira do país com o Líbano. Cerca de 60 mil israelenses tiveram de deixar os seus lares na região devido aos embates com o grupo armado Hezbollah, importante aliado do Hamas.

A atmosfera, em resumo, é pouco propícia para festividades. Por isso, autoridades cancelaram shows de fogos de artifício, até porque a pirotecnia poderia evocar as luzes e os sons da guerra.

Do ponto de vista israelense, há sempre que celebrar o estabelecimento de um Estado por um povo perseguido durante boa parte de sua história. Israel surgiu poucos anos depois do Holocausto, em que a Alemanha nazista matou 6 milhões de judeus. Era o sonho de seu movimento nacionalista.

A fundação de Israel, porém, ocorreu às custas dos palestinos. Líderes árabes não aceitaram o plano de partilha da ONU. Seguiram-se um conflito e a expulsão de 700 mil palestinos de seus lares. Para o lado palestino, o dia seguinte, 15 de maio, marca a nakba (catástrofe, em árabe), que sintetiza esses eventos.

A tomada da Cisjordânia e da Faixa de Gaza por Israel em 1967, no contexto da Guerra dos Seis Dias, agravou a situação. Tel Aviv se retirou de Gaza em 2005, mas continua a impor um cerco. Na Cisjordânia, constrói assentamentos ilegais, contrariando a comunidade internacional.

Tem ficado cada vez mais claro que o estado das coisas é insustentável. O condenável atentado de 7 de outubro é mais uma evidência de que Israel não vai ter paz nem segurança enquanto não encontrar uma solução justa para um problema que está, afinal, na base de sua criação.

Neste contexto se baseiam os protestos pelo mundo de estudantes que têm ocupado universidades para exigir sanções contra Israel. As autoridades israelenses apontam para o antissemitismo. O preconceito existe, de fato, mas não explica, sozinho, as críticas ao país.

Dentro da sociedade israelense há uma parcela ativa, contrária à ocupação da Cisjordânia e à punição coletiva de palestinos. Entre essas organizações destaca-se o Shovrim Shtika (rompendo o silêncio), de ex-militares que denunciam o Exército.

A crise, porém, vai além da guerra atual. Há um desgaste institucional que gira em torno da figura de Binyamin Netanyahu, em seu terceiro período no poder, amparado por forças radicais e religiosas.

Milhares de israelenses foram às ruas nos últimos anos para protestar contra o premiê, em especial sua proposta de reforma do Judiciário, vista como um avanço totalitário. Netanyahu é alvo de graves acusações de corrupção e, quando sair do poder, pode ser condenado e até detido.

Era responsabilidade dele ter impedido o atentado de 2023 e a escalada deste ano. Mas, preocupado com sua sobrevivência política, levou o país a um de seus piores momentos. Prolonga a guerra também, ao menos em parte, para adiar o acerto de contas com a sua população.

Há bem pouco, mesmo, para celebrar em Israel —e muito a se repensar.

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