Não perca seu tempo reciclando plástico

Do THE WASHINGTON POST
Por EVE O. SCHAUB
Eve O. Schaub é autora de “Year of No Garbage: Recycling Lies, Plastic Problems, and One Woman’s Trashy Journey to Zero Waste” (Ano sem lixo: reciclando mentiras, problemas de plástico e a jornada trash de uma mulher para o lixo zero).
Chegou a hora de pararmos de “reciclar” o plástico. O plástico como material não é reciclável, e a melhor coisa que podemos fazer para celebrar o Dia da Terra este ano é reconhecer esse fato.
Isso parece contraintuitivo, eu sei. Há décadas que nos dizem que a resposta para a crise dos resíduos plásticos é mais, melhor reciclagem: se ao menos separássemos melhor! Se tivéssemos melhor acesso às tecnologias de reciclagem! Se ao menos lavássemos e separássemos nossos plásticos de forma mais adequada! Tudo isso é uma cortina de fumaça, projetada para nos distrair da verdade de que a reciclagem de plástico – se por “reciclagem” queremos dizer converter um material usado em um novo material de valor e função semelhantes – é um mito.
Ao contrário do papel, vidro e metal, o plástico não é facilmente transformado em novos produtos. O que passa pela “reciclagem” do plástico é caro, intensivo em energia e tóxico. Além de tudo isso, o processo requer a adição de uma quantidade chocante de plástico virgem novo – cerca de 70% – para manter o item de plástico recém-formado junto. Como resultado, apenas cerca de 5% do plástico é “reciclado” (ou, mais precisamente, “reciclado” em um produto de qualidade inferior). Compare isso com uma taxa de reciclagem de 68% para papel e papelão.
Considerando que, como sociedade, estamos ativamente tentando melhorar a reciclagem de plástico desde a década de 1970, 5% representa um fracasso colossal e inequívoco. Diz-nos que a “reciclagem” plástica é, no fundo, um gesto vazio e performativo.
Muitos ambientalistas vão protestar contra essa afirmação. Eles podem apontar corretamente que os plásticos rotulados com o código de identificação da resina de 1 ou 2 (o número dentro do triângulo “perseguindo setas” em muitos plásticos) têm uma medida maior de sucesso de reciclagem: cerca de 30%. Não deveríamos apoiar a reciclagem pelo menos desse plástico?
Durante muito tempo, pensei assim.
Mas isso nos leva a outro mito: o de que o plástico é inofensivo à saúde humana. O que muita gente não sabe é que o plástico é feito a partir de dois ingredientes: combustíveis fósseis e produtos químicos tóxicos. Quando dizemos produtos químicos tóxicos, estamos a falar de alguns agentes muito maus: metais pesados, substâncias per- e polifluoroalquil (PFAS), retardadores de chama e poluentes orgânicos persistentes. Dezenas de milhares de fórmulas químicas proprietárias estão envolvidas na produção de plástico, a maioria das quais nunca foi testada quanto aos seus efeitos na saúde humana, embora muitas sejam conhecidas por serem desreguladores endócrinos, inibidores da fertilidade e cancerígenos.
O que isso significa é que, mesmo que fôssemos melhorar na reciclagem de plástico, não deveríamos querer. Quando você tritura, derrete e re-forma um monte de plástico (com a adição de lotes de plástico virgem novo para uni-lo), todos esses milhares de produtos químicos plásticos tóxicos se combinam para fazer um material Frankenstein que tem o que os cientistas chamam de “substâncias adicionadas não intencionalmente” nele. O que quer dizer que produtos químicos que não deveriam estar lá começam a aparecer. Um estudo do ano passado concluiu que os plásticos reciclados contêm “um número desconhecido de compostos químicos em concentrações desconhecidas”. Em 2021, um estudo canadense concluiu que o plástico “não é adequado para processamento em PCR de grau alimentício”, referindo-se à resina pós-consumo.
O resultado? Você não quer seus alimentos embrulhados em plástico reciclado e com ingredientes misteriosos.
Mas e se usarmos plástico reciclado apenas para itens não alimentares, como bancos de piquenique? Depois, temos outro aspecto profundamente preocupante do plástico para lidar: os microplásticos. Temos ouvido cada vez mais sobre eles ultimamente, porque os cientistas estão encontrando-os em todos os lugares que olham – no ambiente e no corpo humano.
A composição química de todo plástico – seja qual for o tipo – é um polímero sintético que não se decompõe ou desaparece, nunca. Em vez disso, ele se quebra em pedaços cada vez menores até se transformar em microplásticos ou mesmo nanoplásticos. Essas minúsculas partículas ainda são plásticas, ainda tóxicas, mas agora tão pequenas que estamos comendo-as e respirando-as o tempo todo. Microplásticos foram descobertos em pulmões humanos, corrente sanguínea e leite materno, bem como na placenta de bebês por nascer. Os cientistas encontraram microplásticos no esperma, nos testículos e no cérebro.
O efeito de todo esse plástico em nossos corpos ainda está sendo revelado, mas sabemos que é substancial. Um estudo recente concluiu que a carga de doenças da exposição plástica inclui nascimento prematuro, obesidade, doenças cardíacas e câncer, e o custo dos cuidados de saúde foi de US$ 249 bilhões apenas em 2018. O corpo humano tornou-se a lata de lixo da nossa cultura viciada em plásticos.
Tentar reciclar plástico torna o problema dos microplásticos ainda pior. Um estudo de apenas uma instalação de reciclagem de plásticos descobriu que ela pode estar lavando 3 milhões de quilos de microplásticos em suas águas residuais todos os anos – todos os quais acabam sendo depositados em nossos sistemas de água da cidade ou despejados no meio ambiente.
Neste exato momento, todos nós temos microplásticos percorrendo nossos corpos. Isso não é culpa da reciclagem insuficiente. Isso é culpa do excesso de plástico. Então eu digo: vamos tratar o plástico como o lixo tóxico que ele é e enviá-lo onde ele pode prejudicar menos as pessoas.
Neste momento, esse lugar é o aterro sanitário.
Então precisamos começar a trabalhar na solução real: fazer muito menos.
Tradução: Blog do Paulinho
