Kassio presenteou Rogério de Andrade com carnaval fora de época

De O GLOBO

Por BERNARDO MELLO FRANCO

Ministro do STF pode ser chamado de muitas coisas, menos de desinformado

Em fevereiro, o bicheiro Rogério de Andrade fez saber que estava aborrecido. Não poderia ir ao Sambódromo ver a mulher, Fabíola, evoluir como rainha da bateria da Mocidade.

Se o desfile fosse hoje, o dissabor seria evitado. Numa decisão que espantou os próprios colegas, o ministro Kassio Nunes Marques livrou o capo da obrigação de passar as noites em casa. Ele também foi autorizado a devolver a tornozeleira eletrônica.

A defesa do bicheiro alegou que as restrições o prejudicavam no “bom exercício de sua ativa paternidade”. O apelo não sensibilizou o Superior Tribunal de Justiça. Ao chegar ao Supremo, tocou o coração de Kassio.

A canetada é escandalosa, mas não chega a ser surpreendente. Indicado por Jair Bolsonaro, o ministro coleciona uma série de decisões que fizeram sorrir o sobrinho de Castor de Andrade.

Em setembro de 2021, revogou uma ordem de prisão do capo, que estava foragido da polícia. Três meses depois, votou para trancar a ação em que ele era acusado de mandar matar Fernando Iggnácio, seu rival na disputa do espólio de Castor.

Em agosto de 2022, Kassio revogou outra prisão de Andrade. Desta vez, no processo da Operação Calígula, que o apontou como chefe de quadrilha. A investigação listou múltiplos crimes praticados pelo bando: de homicídio a corrupção, de extorsão a lavagem de dinheiro.

Em junho de 2023, o ministro ainda mandou soltar Gustavo de Andrade, que havia sido preso junto com o pai. O jovem é conhecido como “príncipe regente”. Vai herdar a banca e o controle armado de dezenas de bairros do Rio.

Investigadores costumam apontar Andrade como o bandido mais perigoso do estado. Na nova decisão de Kassio, ele desponta como um cidadão exemplar, vítima de “constrangimento ilegal”.

O ministro pode ser chamado de muitas coisas, menos de desinformado. Sabe quem é o chefão do bicho e conhece seu histórico de fugas e suborno de agentes públicos. Mesmo assim, julgou que a Justiça não precisava mais monitorá-lo.

A tornozeleira nunca impediu que o bicheiro continuasse na ativa. Em março, uma operação prendeu 18 PMs que atuavam ilegalmente como seus seguranças.

Ao ignorar tantos fatos notórios, Kassio presenteou o patrono da Mocidade com um carnaval fora de época. Se depender do ministro, que deu pinta na Sapucaí este ano, o capo voltará à avenida em 2025.

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