Cartolas só querem saber quanto vão ganhar, e quando

De O GLOBO

Por RODRIGO CAPELO

No Brasil e no mundo, é mais fácil culpar concorrentes e atacar a imprensa. Mas o tempo bota as coisas no lugar

Faz um ano que clubes da Série B, incentivados pela CBF, tomaram a decisão de vender seus direitos de transmissão para a Brax. O valor prometido era desproporcional. Escrevi nesta coluna que havia risco de bolha e consequentemente do não cumprimento do contrato, usado à época por Ednaldo Rodrigues, presidente da confederação, para melhorar a relação dele com os presidentes. Faz apenas um ano. Hoje, a Série B está sem transmissão. O contrato já se foi.

Um dos motivos para o rompimento precoce foi a incapacidade da agência de marketing esportivo de honrar os pagamentos. Lembremos: o contrato da Brax incluía R$ 210 milhões já em 2023, com correções anuais que levariam o valor para R$ 279 milhões em 2026. E por que faltou dinheiro? Porque os direitos não valiam tanto assim, porque a agência foi ao mercado e confirmou o que todos sabiam: não havia emissoras que quisessem pagar tanto pelo torneio.

A Brax tinha a expectativa de obter da CBF uma série de outras propriedades comerciais, de modo que o lucro aferido por meio delas compensasse o prejuízo previsto para a Série B. Algo desandou na relação entre a agência e a confederação. O pepino ficou para os dirigentes dos clubes que hoje estão na segunda divisão — que não são inocentes, precisamos admitir, afinal ignoraram os riscos da operação e confiaram nas promessas bancadas por terceiros.

É a história mais repetida da história do negócio do futebol. Neste caso, sabia-se do valor de mercado da Série B, pois a própria CBF havia contratado a IMG para montar uma concorrência pelos direitos. A empresa conseguiria no máximo uns R$ 120 milhões. O trabalho conduzido por ela foi indevidamente desmerecido por dirigentes da confederação, que buscaram a oferta da Brax por conta própria, para satisfazer cartolas dos clubes com o dobro. Deu no que deu.

É a história mais repetida, mas nada impede a repetição. Por um motivo trivial: cartola de clube só quer saber quanto receberá e quando. Quanto mais dinheiro e quanto antes, melhor. Vale para contratos de patrocínio ou direitos de transmissão. Construção de marca, experiência do torcedor-consumidor, avaliação de potencialidades e riscos, tudo isto é papo para especialista em marketing esportivo. No futebol de verdade, presidente só quer saber de quanto e quando.

E a história continuará a se repetir. Neste momento, o Corinthians tem em mãos uma proposta da mesma Brax por seus direitos de transmissão do Brasileiro. A oferta tem um pagamento mínimo de R$ 240 milhões anuais, que podem chegar a R$ 270 milhões, a depender da posição do time na tabela em cada temporada. E ainda está em jogo o aumento do contrato já vigente pelas placas, entre Brax e Corinthians, em R$ 90 milhões adicionais.

Os 19 jogos corintianos como mandante e outras explorações comerciais valem mais do que a Série B, fato, e não proponho tal comparação. Analisemos os riscos. Como se tem barganha numa negociação em que a Libra já fechou com a Globo, o Forte Futebol fará a venda conjunta do bloco, e o Corinthians fica sozinho? Prometer, a Brax promete. E se ela não levantar a verba no mercado, depois, ao revender os direitos para canais e anunciantes?

Não adianta avisar. A natureza do cartola é esta, no Brasil e no mundo. É mais fácil culpar concorrentes e atacar a imprensa. Mas o tempo bota as coisas no lugar.

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