O Equador e a cocaína nos EUA

De O GLOBO
Por GUGA CHACRA
Enquanto houver demanda por drogas, haverá tráfico, e não há nada que o Equador possa fazer contra essa dinâmica do mercado
Ao longo das décadas, o Equador raramente era mencionado quando falávamos de tráfico internacional de drogas. O país tinha índices baixos de criminalidade para padrões da América Latina até a década passada. Isso contrastava com a Colômbia dos anos 1990, dominada pelos cartéis de Cali e Medellín, e o México ao longo deste século. O que ocorre em Guayaquil e outras cidades equatorianas é um fenômeno dos últimos anos em sinal de deterioração aguda da segurança.
Ter fronteira com a Colômbia e o Peru, maiores produtores mundiais de cocaína, não explica o agravamento da situação equatoriana. Os territórios peruano e colombiano sempre estiveram ao lado sem efeitos para crime no Equador ao longo dos anos. Tampouco a instabilidade política, com a remoção de Guillermo Lasso do cargo de presidente e a eleição de Daniel Noboa para o seu lugar, serve de argumento para o atual cenário de fortalecimento dos criminosos. Afinal, em um período de dez anos, entre 1997 e 2007, o Palácio Carondelet, sede da Presidência em Quito, foi ocupado por oito diferentes presidentes. Mesmo assim, não havia gangues como as atuais.
Analistas citam uma série de fatores que contribuíram para o Equador se transformar em um centro do tráfico internacional de drogas. Primeiro, o impacto de as Farc (guerrilha colombiana), que controlavam parte do tráfico de drogas na Colômbia, assinarem um acordo de paz com o governo de Juan Manuel Santos em Bogotá em 2016. O processo teria aberto espaço para gangues no Equador se envolverem no tráfico ao passarem a controlar as rotas para os portos do país de onde a cocaína é levada via México aos EUA e, em menor escala, à Europa.
Um segundo motivo seria o de os cartéis mexicanos verem nos equatorianos uma oportunidade para ampliarem seus tentáculos no tráfico de drogas a partir da América do Sul, como vemos na aliança do Los Choneros com o poderoso cartel de Sinaloa. Ao mesmo tempo, a máfia albanesa, que domina o tráfico na Europa, estabeleceu operações a partir do Equador para novas rotas em direção ao continente. Laços também foram formados com facções criminosas no Brasil. Por último, medidas adotadas por governos nos últimos anos teriam fortalecido os grupos criminosos, que basicamente controlam as prisões do país.
Para enfrentar o problema da criminalidade, o Equador pode seguir para a via da coexistência com os traficantes, como a que vigora em Honduras, ou partir para a repressão, como fez El Salvador. Há diferenças, no entanto, já que a importância do Equador é muito maior para os grandes cartéis do México do que os dois países centro-americanos. Uma forte ajuda dos EUA, como a que houve à Colômbia nos anos 1990, está descartada. No máximo, haverá condenação via DEA (agência antidrogas americana).
Os americanos não têm política clara para combater a cocaína. No máximo, falam em aumentar a segurança na fronteira com o México. Os opioides geram maior preocupação. Cerca de 80 mil morreram de overdose em 2022.
A guerra às drogas, no fim, foi um fracasso. A Colômbia não tem os cartéis, mas segue como maior produtora de cocaína. Os cartéis mexicanos seguem poderosos mesmo com a prisão ou morte de alguns de seus principais líderes, que acabam apenas sendo substituídos. Não haverá mudança, já que o consumo de cocaína cresceu em EUA e Europa. Enquanto houver demanda, haverá tráfico e não há nada que o Equador possa fazer contra essa dinâmica do mercado.
