‘Vivi para contar’: ‘Eu deitei para dormir e acordei com ele deitado na minha cama’, relata Flora Cruz sobre cuidador do pai

De O GLOBO

Por FLORA CRUZ, em depoimento à CAMILA ARAÚJO

Na última quinta-feira, a Polícia Civil abriu inquérito para investigar homem por importunação sexual, após filha de Arlindo Cruz registrar ocorrência na Delegacia da Mulher. O suspeito foi chamado para depor, mas ainda não compareceu à delegacia

O que aconteceu comigo eu não desejo para ninguém. Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer dentro da minha casa. A minha família é noturna, é do samba, eu estou acostumada a frequentar eventos, a gente brinca, dança, está em volta de muita gente sempre. Claro que isso não dá direito a ninguém de fazer nada, mas você imagina que possa ser mais comum de acontecer na rua, nessas circunstâncias, do que dentro do próprio quarto.

Eu cheguei de um evento de madrugada, na última segunda-feira. Só tinha eu, ele e o meu pai em casa. Eu estava tomando banho, quando ele bateu na porta do banheiro perguntando que horas meu irmão viria para casa. Eu disse que não sabia. Na hora, pensei que fosse alguma coisa urgente com o Arlindão, mas não era.

Nunca estranhei o comportamento dele. De todos, ele era o mais velho da equipe, estudava, vivia lendo, parecia ser mais tranquilo, ele era a pessoa que cuidava do amor da minha vida, do meu bem maior, que é meu pai. Aqui em casa a gente tenta manter uma relação bacana com todos os funcionários.

Quando terminei o banho, eu deitei para dormir e acordei com ele deitado na minha cama, do meu lado, com ereção, colocando a mão em mim. Ele queria me convencer que eu tinha que ficar com ele, disse que tinha me visto sem roupa. Eu dei um berro, disse que não, e ele saiu do quarto pedindo desculpa. Ele parecia desnorteado, meio louco. Fiquei desesperada, com muito medo.

Eu fiquei calada dentro do quarto, chorando. Comecei a ligar e mandar mensagem para um monte de gente, mas não conseguia falar com ninguém. Fiquei com medo de ele me ouvir e tentar fazer alguma maldade comigo ou com meu pai.

Quando foi clareando o dia, eu pensei em descer para a portaria, mas eu só pensava no meu pai. Eu só saí do quarto quando amanheceu e chegou outro enfermeiro. Eu chorei muito de alívio e expliquei tudo para ele.

Foi a primeira vez que isso aconteceu. A gente costuma deixar as portas dos quartos destrancadas, justamente por causa do meu pai. Ele está estável, mas a gente acorda à noite para ver como ele está. Faz parte da nossa rotina. Acredito que tenha sido um caso muito bem pensado. Minha mãe sempre fica em casa, ou então a moça que trabalha aqui. Durante o dia tem uma equipe grande que cuida do Arlindão, de fonoaudiologia, enfermeiros. Mas ele sabia que aquele momento era o momento ideal para fazer o que queria.

Depois que eu fui à delegacia, ele me mandou mensagem para perguntar se eu sabia o que era assédio, que eu era quem estava o provocando, pelas roupas que eu usava, pelo meu jeito de ficar em casa.

Eu pensei muito em não denunciar. Fiquei com muita vergonha. É muito difícil. Minha advogada e minha equipe me orientaram a registrar. Quando eu cheguei na delegacia, tinha mais de 20 mulheres com crianças, e aí pensei na importância de estar denunciando.

Esse movimento do “não é não”, do feminismo em si, só começa a fazer sentido quando a gente vive alguma situação de violência. Por isso eu decidi falar. Eu falo para mulheres, que é 90% do meu público nas redes.

A maioria das pessoas me acolheu, me deu amor, me deu palavras positivas. Isso me fortaleceu, você vê que não está sozinha. Claro, sempre tem os que julgam, que não têm compaixão e que estão sempre prontos a te apedrejar.

Hoje eu estou melhor, mas eu não durmo mais sozinha, de jeito nenhum. Eu me sinto na obrigação de reagir, mas como? Ainda estou muito sensível, com medo de andar sozinha. Eu não sei bem como vai ser, mas estou com ajuda psicológica. A babá do meu filho está sendo minha babá. Meu filho está sentindo, pergunta se eu estou bem. Ele vai fazer 4 anos semana que vem. Só penso que preciso criá-lo para que ele não seja mais um. Quando a gente passa pela situação, o peso é outro.

Fico triste porque eu estava numa fase muito boa, no melhor momento do meu trabalho, no auge da faculdade — estou no 4º período do curso de Moda, fazendo o que amo. O momento agora é de tentar me reencontrar, porque a vida continua e eu vou seguir em frente. Eu sou mãe solo e as contas não param de chegar, preciso trabalhar.

Eu desejo amor para esse cara, que ele consiga melhorar como ser humano. A gente só dá o que a gente tem. Dá raiva, sinto nojo, mas o que ele fez diz sobre ele, não sobre mim. Agora eu quero colo. Quero me cercar da minha família, da minha maior herança, que é o samba, que me cura, pelo meu filho, pela minha história. Eu preciso dar um gás no meu trabalho e confiar que vai passar. Não há mal que dure para sempre. Eu sei que eu sou uma mulher forte, de fibra. Vou passar por isso.

Eu suplico a todas as mulheres que denunciem se vivenciarem alguma situação de violência. O 180 está aí para isso. Não tenham vergonha, não tenham medo, se tiverem, denunciem assim mesmo. O alerta é para todas, de todas as idades e, com isso, eu chamo atenção das mães para as crianças. Se eu, que sou adulta, tive dificuldade de falar, imagina uma criança? Eu só expus para fortalecer outras mulheres que passam por isso. Tenham coragem. Essa violência contra nós precisa ter fim.

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6 Comentários

  1. Isso esta parecendo cenas de Cinema. Infelizmente, as personalidades começam a apagar e se refazem usando meios duvidosos para se aparecer na mídia. Dão o máximo de entrevistas relatando o fato com dimensão estrondosa e chocante , chamando para si toda atenção. O fato pode realmente ter acontecido, mas tornar-se celebridade com desgraça, desperta desconfiança.

  2. cada comentário besta!!! Ela não precisa de mais fama! É e sempre será filha do Arlindo! Está certíssima em denunciar!!! E as mulheres deveriam se dar ao respeito e apoiar as outras que passam por isso. Esse machismo tem que acabar! Espero que as mães de agora ensinem seus filhos que ser homem não é isso, que eles devem respeitar as mulheres, e também ensinem suas filhas que NÃO É NÃO!!! Nenhum homem tem direito de forçar uma mulher a qualquer coisa que seja!!! DENUNCIEM!!! GRITEM!!! Não deixem que a opinião torpe de gente escrota tolha a liberdade de vocês.

  3. Que ridículo alguns comentários idiotas, ela não precisa dessas palavras horrorosas ditas por vcs, ela é filha do Arlindo Cruz. Pelanca é sua língua. Flora estamos vivendo um mundo muito difícil, Deus vai te amparar e vc vai superar. Deus abençoe vcs!

  4. Eu abomino qualquer ato desse gênero com as mulheres,mas nesse momento eu pergunto, existe o 190. E funciona…

  5. Be dê ibagens cobandante Abilton!
    Chama o var!
    Não digo que ela está mentindo, porém são tantas situações parecidas onde mulheres tentam ludibriar o sistema com sentimentalismo e, vitimismo. que não se pode mais botar a mão no fogo.
    Homem reprodutor, fornecedor e provedor. Sem isso ele não passa de lixo.
    Mulheres, crianças e animais não precisam fazer nada para serem aceitos pela sociedade!

  6. Boa noite estava lendo aqui sobre .isso
    Eu querendo aqui uma oportunidade de um trabalho desse .mais esse cara vacila ela não e feia . mais a vila mimosa está aí .para esses cara ,ir chega ser nojento. ela por está na casa dela e tendo uma equipe de homem cuidado do pai dela ela deveria dormi com uma roupa melhor do belbidol.mais em fim.ela está na casa dela .ele deveria ter um pouco de respeito.muita gente aí querendo trabalhar e o cara querendo pega a menina tipo a força .,se está afim dela tentava conquistar ,.mais achou que deitando do lado dela e ser masturbando.ia conseguiu . conseguiu foi um processo de estrupo 🤣🤣🤣 vacilão .tenho paciência.se sou irmão dela dava logo um pau nele.para aprender conquistar uma mulher.ou passa ir na vila mimosa .tenho duas filhas meche com elas .não tem polícia certa justiça no rio de janeiro não funciona.

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