Ataques retratam terror protagonizado por parte da classe média

Da FOLHA

Por VENY SANTOS

O ponto mais angustiante talvez seja o da não novidade

À distância, observamos a farra do terror. Sem surpresas, a bestialidade que já vinha sendo anunciada rompeu a linha tênue que separa teoria da prática e, mais uma vez, fez-se história a partir da pura brutalidade.

À distância, quem sempre viveu sob as duras cacetadas de um Estado belicoso reparou —com curiosidade— a gentileza quase inocente dos agentes de segurança pública direcionada a quem está acostumado a fazer imundices e deixar para que trabalhadoras e trabalhadores limpem. Gente com tempo e patrocínio para destruir.

Talvez o ponto mais angustiante seja o da não novidade. Olhar para uma parede sem reboque, perceber suas rachaduras, enxergar o tom quente dos tijolos que parecem músculos, o esfarelar de um concreto de ossada que possui mais areia do que cimento, sem se abalar com a futura ruína dessa fratura exposta.

De repente, um paradoxo emocional: angústia e apatia. Enquanto se tem um, poeira se tornam os outros sentimentos. O que sobra para nós, os de longe, é observar e pensar em como seria se o caos chegasse aqui, nas periferias. E aqui o bagulho é louco.

Lá, na capital do país, o objetivo era promover o terror —o medo que perde rosto em meio a tantos rostos e faz de qualquer um o perigo potencial. Apresentou-se a face extasiada de parte da classe média rancorosa e de seus seguranças particulares disfarçados de policiais.

Depredar patrimônio público, obstruir estradas colocando fogo em pneus, correr pela cidade incendiando carros, invadir prédios, quebrar vidraças, roubar armas, devastar obras de arte, abaixar as calças diante das câmeras, comemorar a miséria de si mesmo durante um pico de euforia perversa. “E se fosse aqui?”. Sem tempo, irmão. Os de longe, que precisam trabalhar —quando há trabalho—, hoje observam além da farra do terror e miram nos estilhaços que terão que limpar. Quando tiverem que fazer seu levante, não será por menos do que a sobrevivência de sua própria gente.

Do maloqueiro, cara de bandido, ignorante, bicho, sempre se esperou a selvageria, e esta, uma vez imposta enquanto estereótipo racista, foi combatida com chumbo e chibata. Pouco importava sua história.

Bem sabiam que os de longe, de outro continente, tinham sua cultura, civilização, mas para dominar os indomáveis era preciso destituí-los de sua humanidade. Os originários também eram tratados como os de longe. Quanto mais distante, mais se justificava o monopólio do uso legítimo da violência. Violência, não força. Eufemismos não aliviam o ardor da carne lascada.

No entanto, quando os autodeclarados patriotas e cidadãos de bem decidem, voluntariamente, às graças da barbárie se lançar, o que se tem, pois, é acesso liberado, espaço livre, sem obstruções. O que se tem, a partir de então, é o registro da farra em bizarras imagens que se descritas em livro sobre a pré-história humana remeteriam ao Pleistoceno Médio —sem o caráter criminoso e o fanatismo político, evidentemente.

A destruição física e simbólica dos Poderes políticos não ocorreu pelo ímpeto da transformação social, cujo objetivo poderia ser, por exemplo, acabar com desigualdades. Tratava-se da mais explícita farra do terror, na qual a cólera deu seu recado: “fomos para as cabeças”. Uma festa surpresa que a praticamente ninguém surpreendeu.

Deveria, inclusive, ter sido anunciada enquanto fato, não boato, por quem tem o dever de bem informar a população —tanto quanto por quem deve defendê-la de si mesma. A liberdade pela qual os de longe até hoje ainda lutam para viver em sua plenitude parece ter sido sequestrada por sujeitos que a querem com exclusividade. Tornou-se convite às mais absurdas ações em prol de parafilias políticas. Crimes, objetivamente.

“Imagina só se fosse a gente!”. Imaginamos e, em silêncio, à distância de toda essa tratantada, tentamos seguir com a vida, torcendo para que ninguém nos impeça de continuar. Porque aqui o bagulho é louco.

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