É a democracia, Folha

Do OMBUDSMAN DA FOLHA

Por JOSÉ HENRIQUE MARIANTE

Jornal perde o prumo ao cobrar Lula e normalizar Bolsonaro em editorial

Folha adernou feio no último domingo (9), quando publicou o editorial “É a economia, Lula”, com amplo destaque no site do jornal e na Primeira Página do impresso. E adernou em um momento de mar revolto e tempestade que assusta os leitores e o país.

É óbvio que a caixa de entrada do ombudsman entupiu: “Novamente apoiando uma ditadura”; “Tapa na cara da democracia”; “O que falta acontecer? Um cabo e um soldado?”; “O pluralismo serve para algum interesse disfarçado”; “A Folha NUNCA EXIGIU que Paulo Guedes ou Bolsonaro explicassem o abandono de suas propostas ditas liberais”; “Que diferença ler a opinião da The Economist”; “Vou me igualar ao Bolsonaro: que merda de editorial”; “Afinal, a Folha quer democracia ou barbárie?”; “A desinformação chegou ao maior jornal do país”; “Editorial distópico”; “Onde a Folha esteve nos últimos quatro anos?”; “Quantos ultimatos Bolsonaro não merecia ouvir?”; “É a democracia, Folha“.

A questão não é cobrar uma política econômica de Luiz Inácio Lula da Silva. Na verdade, reiterar a cobrança que o jornal já havia feito no fim de semana antes do primeiro turno.

O problema, se é que é preciso listar, poderia estar na forma do editorial, o tom agressivo a partir do título, onde Lula é trocadilho para estúpido. Poderia estar na frágil argumentação econômica, quando se diz que a inflação começa a ser contida, mas não que a queda ocorre após desoneração forçada e irresponsável, intervenção na Petrobras, teto solar panorâmico de gastos e uma conta salgada para 2023 contratada por Paulo Guedes para reeleger seu presidente. O problema poderia estar também na argumentação política, que menospreza o despido apoio dos formuladores do Plano Real, entre os de vários outros economistas.

O problema de verdade está em emparedar Lula, com grande visibilidade, e fingir que o céu está azul, que o país vive a festa da democracia. Imaginar que as reiteradas demonstrações de incivilidade e autoritarismo de Jair Bolsonaro são rompantes impensados; que o difícil, como disse a mulher “ajudadora”, é ele falar palavrão. Considerar que propor e chantagear o STF com a venezuelização do tribunal é discussão legítima entre Poderes. Esperar que a ofensiva contra as pesquisas eleitorais voltará candidamente aos escaninhos do Congresso em caso de derrota do incumbente.

Todos esses itens contêm indignação de sobra para muitos editoriais de Primeira Página, mas o jornal preferiu até aqui sublinhar a “soberba” e o “acinte” do não detalhamento de uma política econômica petista. Não são tempos normais.

Lula pode e deve ser cobrado, por óbvio, mas nunca menos do que Bolsonaro. É o presidente que está em débito com a democracia e promete aumentar o rombo institucional se perder ou se ganhar nas urnas no segundo turno. Normalizar o naufrágio não é opção.

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