Lula encontrou o tom e contornou assuntos mais delicados

De O GLOBO
Por MIRIAM LEITÃO
O que se viu foi um candidato combativo, e não acuado como estava Bolsonaro, nem técnico demais como foi Ciro Gomes
O ex-presidente Lula foi bem na entrevista do Jornal Nacional. Havia vários riscos para quem tem o telhado de vidro de ter governado o país por oito anos, ter feito a sucessora, e ter sido preso sob a acusação de corrupção. Ele enfrentou de frente o assunto mais delicado, que era o da corrupção, lendo uma lista do que fez para aumentar a transparência e a força dos órgãos de controle. E isso de fato ele fez.
Usou frases de fácil compreensão para fugir das perguntas mais difíceis. Perguntado sobre por que não se comprometeu a continuar indicando o Procurador-Geral da República da lista tríplice, ele respondeu. “Para ele ficar com a pulga atrás da orelha”. Em seguida, fez uma afirmação perfeita do ponto de vista institucional. “Não quero um PGR leal a mim, quero leal ao povo brasileiro, e às instituições”.
Na delicada questão do desempenho econômico do governo Dilma, ele usou a fórmula de admitir que ela cometeu erros, elogiá-la pessoalmente e revelar que ela mesmo sugeriu que ele não a defendesse, querendo dizer que não é uma dificuldade entre eles. Admitiu dois erros de Dilma, nas desonerações e no preço da gasolina. Mas, ao fim, quis dizer que não tinha poder no governo dela, ao falar para Bonner que quando ele sair da apresentação do Jornal Nacional vai descobrir o sentido da expressão “rei morto, rei posto”.
Um dos momentos fortes da entrevista foi a sua crítica contundente ao Orçamento Secreto. Quando foi perguntado de que forma negociaria com o Congresso, com que moeda de troca, ele respondeu que aquilo é “usurpação de poder e não moeda de troca”. Claro que ele minimiza a dificuldade de acabar com uma prática que o bolsonarismo enraizou na relação com o Congresso.
Na economia ele poderia ter ido melhor. Há fatos e números que pode falar mais bem do seu governo. Mas ele preferiu repetir a crítica ao governo Fernando Henrique dizendo que pegou o país quebrado. O que não é verdade. O país de fato estava com uma crise cambial, em parte até provocada pelo temor que ele inspirava naquele momento nos investidores, mas o governo tinha superávit primário e fez inúmeros avanços no governo Fernando Henrique. Agora, se vencer a eleição Lula conhecerá o sentido da expressão “herança maldita”. O país está cheio de bombas armadas para estourar em 2023.
Sua resposta sobre o agronegócio foi corajosa. Ele disse que o agronegócio se afasta dele pela sua defesa da Amazônia. Claro que a generalização era contra ele, e Lula aproveitou a réplica para se reposicionar, separando o empresariado moderno exportador na área agrícola do que está comprometido com o crime ambiental. E sobre o MST, ele acabou falando bem, mas de uma forma atualizada. Lembrando que eles não são mais o que eram há 30 anos, hoje são os maiores produtores de arroz orgânico.
A entrevista já começou quente, com a pergunta sobre corrupção em seu governo. E ele elogiou. “Importante começar com essa pergunta”. Não negou que houve corrupção, mas argumentou que a combateu dando total liberdade aos órgãos de controle. Criticou a Lava-Jato, mas elogiou o Ministério Público. Encontrou o caminho nesse assunto delicado.
Ao fim, o que se viu foi um candidato combativo, e não acuado como estava Bolsonaro, nem técnico demais como foi Ciro Gomes. Lula encontrou o tom. Nas palavras finais disse algo que o país quer ouvir: “Esse país tem futuro, mas não existe nenhuma experiência de país que ficou rico sem investir na educação.”
