A sinceridade de Leila Pereira

Bajulada por conselheiros e temida por setoristas – pelo hábito de não pensar duas vezes em processar jornalistas – o que gera despesas a quem se defende ou, em alguns casos, até demissão -, Leila Pereira divertiu-se em sua primeira entrevista coletiva na condição de Presidente do Palmeiras.
Suas respostas foram criativas.
Sem contraponto, nem as devidas checagens, passaram como verdade.
Bem difícil acreditar, por exemplo, que Leila, segundo suas palavras, tenha recebido “centenas” de Pix de torcedores em sua conta, que, em aparente uníssono, pediam a contratação de um centroavante:
“O nosso torcedor é tão maravilhoso, que ontem mesmo [após o vazamento do número de CPF] eu passei a receber Pix com pedidos para que eu traga um centroavante, mandaram até sugestões e descrições [do perfil do atleta]. Foram centenas de Pix, é inacreditável, cheguei a pensar que poderia ser um ataque de hacker”
Outra afirmação interessante é a de que abriria mão de inserir as marcas ‘Crefisa’ e ‘FAM’ na camisa do clube se encontrasse parceiros “idôneos” aceitando pagar a mesma quantia de patrocínio.
Não se sabe o conceito de idoneidade de Madame, mas as empresas citadas enfrentam problemas graves na Justiça.
A Crefisa é acusada, segundo algumas ações, de operar à margem da Lei, sejam elas cíveis ou trabalhistas, quando não criminais; a FAM parece apodrecida na origem, sub-judice que está na investigação sobre suas fundação e da real composição de seus proprietários.
Ainda que essa aparente flexibilidade de conceitos da Presidente facilitasse a escolha de nova parceria, seria, de fato, difícil encontrar alguém para pagar patrocínios, bem estranhos, que superam em três vezes a avaliação de mercado.
Além disso, o Palmeiras deve R$ 160 milhões à empresa do marido da presidente, com pagamento atrelado, de maneira, no mínimo, antiética, ao dinheiro aferido em transações de jogadores.
Por falar em ética, ao justificar o óbvio contraponto de interesses em presidir dois lados conflitantes (Crefisa e Palmeiras), Madame citou estar amparada no texto do Código da CBF:
“Eu até decorei o código de ética da CBF [Confederação Brasileira de Futebol] no qual não diz que há conflito de interesse caso o dirigente seja patrocinador do clube.”
Trata-se, convenhamos, de raciocínio lógico para quem não enxerga problema em carregar a tiracolo para o clube um agente de jogadores na condição de assessor e um agressivo dirigente de organizada como gestor informal das categorias de base.
