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Jair, o jornalista, tinha um furo

Ilustração de Carvall publicada na coluna Ombudsman do dia 13 de junho de 2021. Na imagem o presidente Bolsonaro está sentado à mesa e rabisca com a mãe direita o jornal.

Por JOSÉ HENRIQUE MARIANTE

OMBUDSMAN DA FOLHA

Presidente usa a tal da mídia para vender propaganda como se fosse notícia

Espera-se de um ombudsman que critique a Folha, mas é papel dele também analisar a mídia, seus agentes, assuntos e dilemas. A coluna, portanto, parte dessa premissa para comentar a atuação do presidente da República, na última semana, em uma aula pública de como não fazer jornalismo —leia-se, produzir fake news.

Na segunda (7), Jair Bolsonaro anunciou a apoiadores que tinha um furo em mãos. “Em primeira mão aí para vocês”, disse. Furo, no jargão da imprensa, é a notícia exclusiva, que você consegue na frente e publica antes que seus concorrentes. Animado com o seu furo, o presidente fez questão de dar a fonte da informação. “Não é meu. É do tal de Tribunal de Contas da União.”

Bolsonaro, muitas vezes, se considera ilegítimo como fonte de informação. “Não sou eu que estou dizendo” é uma frase frequente em seu discurso. Como todo jornalista sabe, ter uma origem qualificada para afiançar os dados de uma reportagem é o primeiro passo para um bom trabalho.

O selo de qualidade do TCU é largamente usado pela mídia nacional. Responsável por auditar as contas do governo, o tribunal é produtor natural de conteúdo de controle ao dissecar atos dos administradores públicos. Ou seja, até esse ponto o repórter Jair foi bem. Só até aqui, na verdade.

“Questionando o número de óbitos do ano passado por Covid. E ali o relatório final não é conclusivo [ponderação], mas em torno de 50% dos óbitos por Covid ano passado não foram por Covid [repetição para ênfase], segundo o Tribunal de Contas da União [confirmação].”

É mentira, o país inteiro já sabe. Brotou da mente e do computador de um auditor da corte, filho de um militar amigo de Bolsonaro, o jornalismo profissional não tardou a revelar. Naquilo que deveria ser um episódio de grande constrangimento, vivesse o país uma situação normal, o próprio TCU veio a público desmentir o presidente em comunicado oficial.

Na terça (8), Bolsonaro, de novo entre apoiadores, deu um “Erramos”: “O TCU está certo, eu errei quando eu falei tabela, o certo é acórdão”. Entendeu? Bem, a ideia não era fazer entender, mas registrar que aquilo que foi dito ontem não era exatamente aquilo, a despeito de haver um “indício enorme” de supernotificação de casos de Covid nos estados.

Mentira de novo. O país inteiro já sabe, também graças ao jornalismo profissional, que a hipótese mais provável é haver subnotificação da doença. O Brasil está longe de ser um Peru, que viu triplicar da noite para o dia o número de mortos após revisão de critérios, mas tem um salto de óbitos por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave), contabiliza expressivo excesso de mortos e testa muito pouco.

As razões do funcionário, afastado de suas funções e sem acesso ao sistema e ao prédio do TCU, serão investigadas. As razões do presidente ao apurar e difundir algo que claramente não era factual são óbvias. Como bem descrito em um quadrinho de Adão Iturrusgarai, “mentira tem perna curta, mas dribla bem”.

Foi um escândalo o que aconteceu na semana passada. Jair, o jornalista, deu uma barriga, outro jargão do setor, este para notícia inverídica. Bolsonaro, o presidente, ganhou mais um documento apócrifo circulando nas redes para atestar que a mentira que ele disse parece verdade.

Folha patinou na largada da novela, principalmente na edição protocolar da notícia. Errou ainda ao dar pouco espaço ao assunto na Primeira Página, na quinta (10), quando restou verificada a falta grave do servidor.

Não que o episódio tenha sido mais ou menos grave diante dos outros tantos que o mandatário produziu nos últimos dias. Em nenhum deles, porém, o mecanismo de manipulação ficou tão evidente.

O bolsonarismo é uma usina de notícias falsas, e o presidente das lives e das redes sociais, ocupando espaço da mídia e tratando propaganda política como notícia, se comporta como um concorrente dos veículos de imprensa. É preciso então tratá-lo como tal.

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