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CPI derrapa ao oferecer palco para o negacionismo

Como a cloroquina e seu maior propagandista fraturaram a classe médica

De O GLOBO

Por BERNARDO MELLO FRANCO

Bolsonarismo contra a ciência

A CPI da Covid é um sucesso de audiência. Dominou o noticiário político e o debate nas redes sociais. A comissão já reuniu provas da omissão e dos crimes do governo na pandemia. Mas tem derrapado ao oferecer palco para a desinformação e o negacionismo.

Na terça-feira, uma secretária do Ministério da Saúde aproveitou os holofotes para vender a farsa do “tratamento precoce”. Mayra Pinheiro mostrou por que ganhou o apelido de Capitã Cloroquina. Fez uma defesa entusiasmada do remédio, que não tem eficácia contra o coronavírus.

A doutora foi desmentida ao vivo pelo senador Otto Alencar, que é médico e lembrou que a substância só serve para o tratamento da malária. Mesmo assim, sua performance foi aplaudida pela claque governista.

Ontem o senador Marcos do Val assumiu o papel de garoto-propaganda do curandeirismo. Ele imitou o presidente Jair Bolsonaro ao discursar com uma caixa de cloroquina nas mãos. Depois sugeriu que o colega Major Olímpio, morto em março, estaria vivo se tivesse tomado o remédio.

Em outro momento de baixaria, o senador Eduardo Girão citou a morte do sambista Nelson Sargento, aos 96 anos, para levantar suspeita sobre a eficácia das vacinas. Ele também repetiu o boato de que a Coronavac seria produzida com células “extraídas de fetos abortados”.

O presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, esclareceu que o imunizante só usa células de macaco. Mas a pergunta já foi suficiente para alimentar a máquina de fake news do governo.

Do Val e Girão integram a “bancada da cloroquina”, disposta a tudo para defender o capitão. O grupo também inclui o ruralista Luis Carlos Heinze, que não perde uma chance de citar o pequeno município de Rancho Queimado como um oásis na pandemia. É um erro desprezá-lo como uma figura folclórica. Ele foi o senador mais votado do Rio Grande do Sul e deve disputar o governo em 2022.

Na próxima semana, a CPI pode voltar a servir de palanque para a negação da ciência. A comissão ouvirá Nise Yamaguchi, integrante do “gabinete das trevas” que aconselha o presidente na pandemia. Se os senadores não se prepararem, arriscam ser enrolados pela médica bolsonarista. “Eles tentam confundir a população. Nunca houve tanta leviandade e má-fé na história da medicina”, critica Otto Alencar.

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