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A dignidade da pessoa humana

Por CILENE VICTOR

Ontem, chorei na rua. Havia passado o dia todo tentando um atestado médico para tirar um visto. Fazia tempo que não era humilhada e destratada como fui ontem.

Essa não pode ser a regra do serviço público de saúde. Não podemos conferir normalidade a isso.

Onde esses enfermeiros, médicos, auxiliares de enfermagem e atendentes estudaram ou foram treinados?

Em que momento de sua formação foram sensibilizados sobre o tema da dignidade da pessoa humana? Sobre a importância de levantar a cabeça e olhar para o paciente, sobre a importância de não responder com os ombros como se quisesse dizer: “o que eu posso fazer?”

Ah, como faz falta contemplar cadeiras de humanidades e temas atuais na formação profissional, inclusive e sobretudo na área da saúde.

O choro foi pela minha humilhação, mas quando ele passou do ponto, percebi que chorava lembrando da humilhação que a minha mãe viveu quando, recém chegada do sertão, tentava tratamento médico pra minha irmã. Chorei lembrando das mulheres que, diferentemente de mim, não têm plano de saúde e são tratadas com indiferença, ignorância, arrogância e rispidez.

Depois de três atendimentos telefônicos desdenhosos e ríspidos em ambulatórios dedicados aos viajantes, fui às UBS. Na primeira, o médico estava a dois metros de distância, sem nenhum paciente. A unidade estava vazia, ninguém, nenhum paciente. “A senhora não mora aqui em São Bernardo, então, tem de ser no seu bairro”. Argumentei que trabalhava no município: “Sinto muito, peço desculpas, mas o médico não pode lhe atender”.

Corri pra UBS do meu bairro. Estava lotada. Pedi informação sobre que senha pegar para conseguir um atestado médico para um pedido de visto. “Não sei não”, me disse a atendente com os ombros. “Tente falar com as enfermeiras da sala 11”.

Boa tarde, a senhora é enfermeira? Boa tarde, por gentileza, a senhora é enfermeira?

A enfermeira que atendia uma paciente me pediu pra esperar. Já com o sapo querendo soltar da garganta, olhei pra a mulher que estava de costas, no computador, e disse: bastava ela me dizer se era ou não enfermeira.

“Sim, sou enfermeira, o que a senhora quer?”

Respirei fundo e expliquei o que precisava. “Onde a senhora mora?” Aqui, no bairro, na rua tal.

“Então sua UBS não é aqui, é na avenida tal”.

Saí cega, não acreditava que estava a 10 minutos a pé da minha casa e mesmo assim não poderia ser atendida.

Fui à terceira UBS. Na entrada, o funcionário da recepção me olhou como se eu tivesse pisado em todos os cocôs de cachorro das calçadas.

Sem levantar a cabeça, me mandou procurar a enfermeira.

Subi e lá encontrei uma enfermeira explicando gentil e cuidadosamente para um casal bem humilde, nordestinos como eu, de chinelo de dedo, a importância do “seu Antonio” comparecer todos os dias no posto pra tomar o remédio.

Eu estava muito nervosa, mas não poderia atrapalhar aquele atendimento. Caiu uma lágrima quando a enfermeira chamou o paciente pelo nome: “Seu Antonio, não é justificativa pra não ter vindo. É a sua saúde, ficamos preocupados quando o senhor falta. Veja como sua esposa fica preocupada”.

Quando terminou o atendimento, entrei e expliquei o meu caso.

“Puxa, faz meia hora que a médica foi embora. Mas deixa aqui as cópias dos exames, o modelo do atestado já pra adiantar e volte aqui na segunda-feira que a médica vai atendê-la já sabendo o seu caso”.

Precisava dessa exceção. Precisava ter certeza de que é possível encontrar profissionais que, independentemente das condições de trabalho, seguem respeitando o paciente, o ser humano.

Ainda não tenho o atestado e já parei de chorar rsrs, mas sigo na ansiedade de ter o atestado na segunda-feira.

Respeito à dignidade da pessoa humana não é um conceito, deve ser uma prática.

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