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Depoimento: Cala a boca, Boechat!

Mônica Bergamo e Ricardo Boechat

Da FOLHA

Por MÔNICA BERGAMO

Colunista Mônica Bergamo fala sobre como era trabalhar na rádio com o jornalista, morto na queda de um helicóptero

E ele se calou, de forma trágica. Nunca mais vamos conversar todas as manhãs, como fizemos religiosamente durante mais de dez anos na rádio BandNews FM.

Boechat às vezes me interrompia tanto, em especial nos primeiros anos da minha participação na rádio, que uma das minhas tias, Ruth, ficava chateada. “Ele não deixa você falar!”, reclamava ela.

Um dia comentei isso com Boechat. Que adorou.

Além de citá-la no ar e pedir desculpas, criou um bordão, uma palavra de ordem: todas as vezes em que percebia que me cortava, ele mesmo gritava: “Cala a boca, Boechat!”

Por essas e outras, era comum cairmos na gargalhada no meio dos comentários.

Era ainda mais frequente ele me interromper com uma pergunta inusitada sobre o tema de que eu tratava, um questionamento inesperado, com o pedido de uma melhor contextualização.

Ou, pior: às vezes, abria uma divergência ao vivo e a cores (o programa é transmitido pela internet).

Um sufoco! Ainda que a minha participação durasse cerca de cinco minutos, o patamar de exigência de Boechat, em meio a piadas e brincadeiras, era o mais alto possível.

Com ele, não tinha enrolação. Ou sabe do que está tratando, ou passa vexame.

Uma vez eu falava sobre como a crise internacional influía na economia brasileira. E ele: “Imagina! E os outros países da América Latina? Por que não estão mal? E o Chile?”

E eu, com números: “A economia chilena despencou assim e assim”. Ele insistiu: “E a Colômbia?”. O desemprego aumentou. Depois do terceiro ou quarto país, Boechat enfim cedeu.

Sou testemunha de que era idolatrado pela maior parte dos ouvintes. Foram centenas as vezes em que, no táxi ou no Uber, eu falava ao telefone com alguém. E era reconhecida pela voz.

“Você é a Mônica Bergamo?”. Sim, sou eu. “A colunista de todas as manhãs [como ele me apresentava]?” Eu mesma. No começo, imaginava que seria elogiada ou criticada.

Mas quase sempre os motoristas queriam mesmo era saber do Boechat, ele sim o companheiro deles de todas as manhãs.

E choviam perguntas. Como ele era? E a mulher dele, a doce Veruska —era assim que Boechat se referia a ela no ar, quase todos os dias.

Depois da notícia da morte, centenas de taxistas foram até a sede do Grupo Bandeirantes, no Morumbi. Deram várias voltas no quarteirão, buzinando sem parar, numa homenagem cheia de emoção.

Eu estava perto de minha casa quando recebi a notícia. Minha filha começou a telefonar sem parar. Voltei.
Encontrei a ela, que só esteve com Boechat pessoalmente uma vez, aos prantos.

A Nice, que trabalha conosco, também chorava muito. Me disse que o marido estava desolado.

Mensagens de amigos e familiares lotaram o meu WhatsApp. Todos inconformados com a morte de Boechat.

Certa vez, no começo da minha participação matinal, ele me surpreendeu: “Mônica, você vai chorar quando eu morrer?”.

Comecei a dar risada. Ele disse algo como “estão vendo, estão vendo?”. E caiu na gargalhada também.

A hora da despedida chegou. Muito mais cedo do que nós imaginávamos.

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