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O terror rouba nossas cidades

Da FOLHA

Por CLÓVIS ROSSI

O terrorismo está matando, além de pessoas, o que o “Financial Times” chamou de “walkability” ou, em tradução aproximada, a possibilidade de passear por uma determinada via.

Antes do grande jornal britânico, a Folha já havia registrado essa tristeza, na palavra de Nabil Bonduki, que tem uma instigante visão de urbanismo. “A brutalidade do ato, realizado em uma avenida celebrada pela sua beleza e capacidade de atrair cidadãos de todo o mundo, coloca em risco uma das maiores virtudes das cidades: o uso do espaço público como ponto de encontro, sociabilidade e cultura”, escreveu na terça (22).

Desnecessário dizer que o texto aludia ao atentados nas Ramblas de Barcelona. O terror dificilmente poderia ter escolhido ponto mais simbólico para causar tremendo impacto: as Ramblas são uma ode à vida, mais até do que o “ponto de encontro, sociabilidade e cultura” ressaltado por Nabil Bonduki.

Tenho por Barcelona e, em particular, pelas Ramblas uma paixão antiga, o que faz com que o atentado da semana passada me abale com especial força.

Hospedei-me em um hotel nessa avenida durante a cobertura das Olimpíadas de Barcelona em 1992. Vivia, pois, o dia a dia de sua gente e da catarata de turistas que a frequentam, número que aumentou exponencialmente durante os Jogos Olímpicos.

É impossível viver nas Ramblas e não passar, de preferência todos os dias, pelo mercado de La Boquería, um templo para os sentidos com a sua impressionante aquarela de cores pintadas em cada banca pelas frutas, verduras, sucos.

O encanto das Ramblas fascinou um extraordinário poeta, Federico García Lorca, que nem era catalão e, sim, andaluz. Escreveu sobre elas: “A rua mais alegre do mundo, a rua onde vivem juntas ao mesmo tempo as quatro estações do ano, a única rua da Terra que eu desejaria que nunca acabasse, rica em sons, abundante em brisas, formosa de encontros”. Foi nessa preciosidade e muito perto de La Boquería que parou a van utilizada no atentado.

Parece de propósito para demonstrar o desprezo do autor pela vida, pela alegria, pelas cores. Não é coisa de ser humano, não pode ser. Mas não encontro uma palavra que possa designar os terroristas.

O mais assustador é que os monstros não têm cara de monstros. Descreve-os para “El País” a educadora social Raquel, de uma escola de Ripoll, a cidadezinha onde quase todos moravam:

“Essas crianças eram crianças como todos, como meus filhos, como as crianças de Ripoll.”

Como defender-se desse tipo de criminosos? Uma vez, muitos anos atrás, bem antes da sequência de atentados que sacode o mundo, saímos para passear por Londres, minha filha e eu, que então vivia por lá. Ela comentou: “Pai, você não sabe como é bom poder caminhar sem precisar ficar olhando para trás ou para os lados.” Alusão, claro, à violência em São Paulo que leva a andar sempre tenso pelas ruas.

Agora, não dá mais para dizer a mesma coisa.

Pior: nem adianta olhar para os lados porque o assassino pode ser “uma criança como todos”.

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