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O armário esportivo está cheio de pessoas fingindo ser o que não são

Instalações do Sport Clube Gaúcho, da terceira divisão do Rio Grande do Sul *** ****

Da FOLHA

Por MARILIZ PEREIRA JORGE

Muito acontece no mundo do esporte, mas a notícia mais importante da semana é a rescisão do contrato dos jogadores do Sport Clube Gaúcho, time da terceira divisão do Rio Grande do Sul. Eles aparecem no que foi descrito como um vídeo de “masturbação coletiva”. Não vi e não me interessei pelo assunto, a não ser quando soube que eles haviam feito um “acordo” para serem desligados do time.

Falemos a verdade: foram dispensados e aceitaram pacificamente para evitar maiores constrangimentos.

O Sport Clube Gaúcho perdeu uma excelente oportunidade de dar uma lição ao mundo. Brincar de troca-troca no vestiário depois do jogo não é crime em nenhuma legislação, mas os jogadores acabaram punidos como se tivessem cometido uma infração grave. Pelo time e pela opinião pública.

Eles estavam concentrados sob aquelas regras absurdas e ultrapassadas de não fazer sexo antes de algum jogo? Não. Então, nem uma advertência essa história toda merecia. Os jogadores que se entendessem para explicar a brincadeira para suas mulheres, as únicas que realmente têm motivo para se incomodar com o episódio.

Contratar ex-goleiro condenado por assassinato pode. O que não pode é correr o risco de ficar com fama de ter jogador gay no time, podemos concluir pelas declarações do dirigente do Passo Fundo Gilmar Rosso. “Imagina quando eles entrassem em campo, o que eles iam ouvir!”. Talvez o que muitos jogadores já ouçam hoje. Bicha? Viado? Nossa, que horror, não é mesmo!?

“Foi feito um acerto, um acordo, e eles seguem a vida deles. Até onde eu sei esses três não são gays, só fizeram [sexo] tirando onda, mas agora eles vão ter que provar que não são.”

Provar o quê? Por quê? E para quem? Estas deveriam ter sido as perguntas feitas pelos veículos de imprensa que cobriram o caso. Percebe-se agora que o único interesse foi bisbilhotar sobre a sacanagem coletiva e não sobre a demissão injusta.

A declaração de Rosso é homofóbica. A reação da imprensa é homofóbica e covarde. Fica todo mundo com medo de ampliar a discussão e se posicionar sobre o assunto.

Uma das poucas entrevistas com um dos jogadores envolvidos, feitas sem que ele se identificasse, foi uma das coisas mais constrangedoras que já li. “Foi uma brincadeira? Qual o contexto? Era uma aposta? Isso é frequente?”

Qual o intuito dessas perguntas? A quem interessa? O importante nessa história toda é que jogadores foram desligados de um clube de futebol porque talvez, quem sabe, melhor prevenir, sejam gays, bissexuais ou, no mínimo, estejam brincando com coisa que macho não deve nem chegar perto.

Isso apenas acontece porque o armário esportivo está cheio de pessoas fingindo ser o que não são, que jamais se manifestariam numa situação como essa, porque não tem apoio dos times e do público. E nessas horas vemos que a imprensa também perde a oportunidade de se manifestar e cobrar uma postura diferente dos dirigentes.

Aconteceu quando Eurico Miranda disse ser contra árbitros gays no futebol. Aconteceu agora que o time de Passo Fundo se livrou de jogadores que poderiam ligar o time a um episódio gay, mas saiu pela tangente alegando que a demissão aconteceu por causa de “fotos e filmagens sem autorização”, nas dependências do clube.

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