Exclusivo! As contas do estádio de Itaquera (com documentos)

Há algum tempo, torcedores, associados e conselheiros do Corinthians fazem o mesmo questionamento: cadê as contas do estádio ?
Odebrecht, Fundo Arena e Corinthians… ninguém responde.
O Blog do Paulinho teve acesso à toda contabilidade da Arena Fundo de Investimento Imobiliário – FII (balanços, etc.) e também a relatórios enviados pela BRL TRUST (gestora do fundo), aos órgãos de fiscalização, entre os quais a CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
Segundo Informe Contábil enviado pela BRL TRUST à CVM, datado de setembro de 2016 (o mais recente), a Odebrecht tem ainda a receber, do FUNDO, pela construção do estádio de Itaquera, exatos R$ 365.942.477,69 dos R$ 985 milhões cobrados pela construtora após a majoração do preço final (o acerto anterior era de R$ 820 milhões), consentida no quinto aditivo, assinado pelo presidente Mario Gobbi e seu diretor financeiro, Raul Corrêa da Silva.
O Fundo, portanto, quitou R$ 619.057.522,31.
Não se trata, porém, do quanto o Corinthians tem a pagar aos gestores do estádio, mais de R$ 1,6 bilhão, englobando, além dos valores principais, os empréstimos pontes, as despesas operacionais e o dinheiro do BNDES (todos acrescidos dos devidos juros).
É importante notar, dentro desse quadro contábil, que a Odebrecht, que sequer finalizou a obra do estádio, como vem comprovando auditoria externa bancada pelo Corinthians, já recebeu 62,9% de toda a Nota Fiscal emitida ao Fundo.
Mostraremos abaixo, com dados retirados de todos os balanços auditados do Fundo (ao final de cada texto o leitor poderá baixar a íntegra dos documentos), detalhes sobre as evoluções de pagamentos, dívidas e outros pormenores que cercam a vida financeira do estádio de Itaquera, utilizado pelo Corinthians.
BALANÇO DE 30 DE JUNHO DE 2012
O primeiro balanço do Arena Fundo de Investimento Imobiliário – FII (constituído em 16/08/2011, mas com atividades iniciadas apenas em 20/12/2011), de junho de 2012, foi auditado pela KPMG, que, em suas observações, indicou ressalvas à contas, discordando de algumas práticas contábeis dos gestores do estádio.
Provavelmente em razão disso, a empresa foi trocada, nos anos seguintes (2013, 2014, 2015 e 2016) pela Grand Thornton, a mesma auditoria responsável pelas contas do Corinthians, que tem proprietários ligados ao diretor financeiro Raul Corrêa da Silva.
Não houve mais ressalvas.
Voltando aos dados de 2012, o preço indicado para a construção do estádio era ainda de R$ 820 milhões, com a explicação de que seriam pagos da seguinte maneira: R$ 420 milhões (CIDs da Prefeitura) e R$ 400 milhões (empréstimo do BNDES).
Sabemos bem que a previsão não se confirmou.
Naquele período, a Odebrecht entregou 41,52% da obra, que custou, até então, R$ 350.231.000,00.
A construtora recebeu R$ 241 milhões do Fundo em 2012.
Está especificado no balanço que parte deste montante foi oriundo de dois empréstimos tomados pela empresa Arena Itaquera S/A, tendo, em ambos os casos, a própria Odebrecht como avalista:
- R$ 100 milhões junto ao banco Santander, corrigidos pelo CDI + 1,45% anual de sobrepreço;
- R$ 150 milhões junto ao Banco do Brasil, corrigidos pelo CDI + 1,38% de sobrepreço;
Consta ainda a contratação do escritório de advocacia Machado Meyer, com a especificação de atuar num único caso: uma ação pública de improbidade administrativa movida pelo MP-SP, contrário à cessão do terreno de Itaquera ao Corinthians.
O valor dos honorários ? R$ 480 mil.
Dentre outros custos, o Fundo decidiu cobrar R$ 75 mil mensais, à título de “Taxa de Administração”, perfazendo o total anual de R$ 900 mil.
BALANÇO DE 30 DE JUNHO DE 2013
A Odebrecht apresentou como concluídas, até 30 de junho de 2013, 81,64% das obras do estádio de Itaquera, a custo, até então, de R$ 692.752.000,00.
Destes, recebeu R$ 432.588.000,00 do Arena Fundo.
A Taxa de Administração foi corrigida para R$ 79 mil mensais, ou seja, R$ 948 mil anuais.
BALANÇO DE 30 DE JUNHO DE 2014
Neste ano é contabilizado o ajuste de preço do estádio de Itaquera, que passa dos anteriores R$ 820 milhões para R$ 985 milhões, acordados no Quinto Aditivo do Contrato de Construção firmado com a Odebrecht, com anuência do presidente Mario Gobbi e do diretor financeiro Raul Corrêa da Silva (parceiro da empresa de auditoria).
Enfim, o Fundo recebeu os R$ 400 milhões do BNDES, que serão pagos em 156 parcelas, somente após período de carência de 24 meses (que o Corinthians tenta, desesperadamente, estender).
Com as receitas de suas partidas de futebol, o Timão enviou também aos gestores a quantia de R$ 4.423.000,00, contabilizadas como “amortização de direitos de superfície”, em linguagem popular, enviados para quitar parte da dívida com a Odebrecht.
O Fundo teve acesso também aos CIDs da Prefeitura, cedidos pelo Corinthians, com valor cheio de R$ 420 milhões, mas contabilizados, devido ao deságio, como R$ 346.973.000,00.
Apesar do aditivo indicar que o preço do estádio subiu para R$ 985 milhões, a conta apresentada pela Odebrecht, por 100% das obras concluídas (tanto o clube como o FUNDO aceitaram a conclusão) foi de R$ 898.001.000,00.
A diferença, não explicada, é de R$ 86.999.000,00.
São registradas, também como despesas do Fundo:
- R$ 465 mil – seguros;
- R$ 422 mil – vigilância e segurança;
- R$ 1.570.000,00 – manutenção e conservações;
- R$ 551 mil – despesas condominiais;
- R$ 52.713.000,00 – ajustes para a Copa do Mundo (overlay)
- R$ 4.423.000,00 – amortização de direitos de superfície (o dinheiro dos ingressos do Corinthians utilizado para diminuir a dívida com a construtora)
Em 2014, a dívida do Fundo com a Odebrecht foi contabilizada no valor de R$ 317.759.000,00.
Corrigiu-se, novamente, a Taxa de Administração: de R$ 79 mil mensais para R$ 83 mil mensais (R$ 996 mil anuais).
* Preste atenção neste item: em 15 de novembro de 2014, o Fundo contabilizou a devolução de R$ 10.736.000,00 realizada pela Odebrecht, que os gestores teriam pagado, equivocadamente, à construtora, no dia 18/06/2014, quando o dinheiro deveria ter sido destinado (segundo o documento) para a fornecedora contratada para adaptação do estádio para “ajustes da Copa” (overlay).
Denúncias dão conta de que o montante trava-se, em verdade, de pagamento de propina, oriundo da Odebrecht, ao deputado federal Andres Sanches, por intermédio de “laranja”, que seria a empresa Stillo’s Produções e Eventos, especializada em festas de formatura (!?), contratada pelo Fundo para a Copa do Mundo, mas que mantém sua proprietária, Andrea De Cassia Palumbo De Santis, atuante do estádio.
Interessante notar que a contratação da empresa de deu um mês antes de, supostamente, fazer jus à milionária quantia.
Para saber detalhes sobre este assunto, clique no link abaixo:
Meses depois, em outubro de 2014, os gestores do estádio renovaram contrato com o escritório de advocacia Machado Meyer, também indicados do deputado Andres Sanches, pelos mesmos R$ 480 mil anteriores.
BALANÇO DE JUNHO DE 2015
Em 2015, a dívida do Fundo com a Odebrecht, muito provavelmente por conta de juros, apesar das referidas amortizações, saltou de R$ 317.759.000,00 para R$ 395.496.000,00.
O Corinthians repassou grande soma em dinheiro aos gestores, oriunda da arrecadação de seus jogos: R$ 42.663.000,00 (contra apenas R$ 4.423.000,00 do ano anterior).
Destes, o clube teria recebido de volta R$ 16,4 milhões, frutos de um contrato assinado em 10/06/2014, remunerando-o por “operação de equipamento esportivo, agenciamento e outras avenças – comercialização e agendamento de eventos”.
Devido ao ineditismo da informação, a falta de referência à entrada deste dinheiro no balanço alvinegro e o histórico de desvios de conduta de seus mais recentes dirigentes, seria de bom tom, talvez, checar o destino dos referidos recursos.
Foram listadas como despesas operacionais incríveis R$ 100.476.000,00, assim discriminados:
- R$ 5.575.000,00 – condomínio;
- R$ 41.970.000,00 – manutenção e conservação (incluso “Overlay);
- R$ 43.808.000,00 – amortização sobre direitos de superfície (pagamento à Odebrecht);
- R$ 16.444.000,00 – comercialização e agendamento de eventos (Corinthians):
- R$ 2.278.000,00 – seguros;
- R$ 335 mil – taxas e impostos;
- R$ 366 mil – vigilância e segurança
Novamente a Taxa de Administração sofreu reajuste: de R$ 83 mil mensais para R$ 89 mil (R$ 1.068.000,00/ano)
CONTAS DE 2016
Não tivemos acesso ao balanço do Arena Fundo em 2016, mas nem por isso deixamos de verificar as contas, divulgadas, mês a mês, em informes contábeis enviados pela BRL TRUST à Comissão de Valores Mobiliários.
É no último deles, datado de setembro de 2016, que está especificado (mostramos no início da matéria) que o Fundo pagou 62,9% da dívida com a Odebrecht, ou seja, faltam R$ 365.942.477,69.
Clique nos links abaixo para ter acesso à integra de todos os documentos contábeis enviados pela BRL TRUST à CVM, no presente exercício:
