Donald Trump tem visão sombria sobre EUA e dissociada da realidade

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Da FOLHA

Por PAUL KRUGMAN*

Sou parte da geração baby boom, o que quer dizer que tenho idade suficiente para me lembrar de quando os conservadores gritavam “ame-o ou deixe-o”, falando dos Estados Unidos, para rebater as críticas de pessoas de esquerda contra o racismo e a desigualdade.

Esses dias ficaram para trás. Hoje, o desdém pelos Estados Unidos —o país que realmente existe, e não a suposta “verdadeira América” na qual mulheres e minorias sabem seu lugar— está concentrado na direita.

É fato que os progressistas continuam a ver muita coisa de errado na nossa sociedade, e continuam a buscar mudanças. Mas também celebram o progresso que realizamos, e em sua maioria as mudanças que desejam são pontuais: eles querem melhorar as instituições existentes, e não queimar a coisa toda e recomeçar do zero.

Na direita, porém, o que vemos são cada vez mais figuras importantes que descrevem a nossa sociedade como um pesadelo distópico.

Isso é claramente verdade no que tange a Donald Trump, que vê o mundo por lentes cor de sangue. Em sua visão sobre os Estados Unidos —claramente derivada em larga medida de fontes neonazistas ou grupos que defendem a supremacia branca—, o crime está fora de controle, os centros das grandes cidades são zonas de guerra e hordas de imigrantes violentos se despejam incessantemente pelas nossas fronteiras indefesas.

Na realidade, o número de homicídios mostra uma queda histórica, as grandes cidades estão passando por uma notável renovação e o número líquido de imigrantes que chegam do México é negativo. Mas só estou dizendo isso porque sou parte da conspiração.

Enquanto isso, você encontra visões quase igualmente sombrias, e tão dissociadas da realidade, entre os membros da elite republicana, pessoas como o presidente da Câmara, o deputado Paul Ryan.

Ryan é o queridinho da mídia, claro. Não conta com apoio realmente forte da parte da base de seu partido. Sua importância deriva, em lugar disso, de uma imprensa que decidiu anos atrás que ele representava o arquétipo do conservadorismo sério e honesto, e se apega a essa descrição não importa quantas vezes a evidente fraude e crueldade de suas propostas sejam expostas.

Se o passado serve como indicador, ele será rapidamente perdoado apesar de sua falta de compasso moral nesta eleição, apesar de sua decisão de não romper com Trump —ou mesmo criticar o candidato por questionar a legitimidade da votação—, não importa o quanto se torne grotesco o comportamento do candidato oficial do Partido Republicano.

Mas vale a pena apontar para o retrato dos Estados Unidos pintado por Ryan na semana passada em um discurso à organização universitária dos republicanos. Pois, ao seu modo, ele representa uma visão tão distante da realidade quanto os desvarios de Donald Trump (cujo nome Ryan nem mesmo mencionou no discurso).

É justo, claro, ressaltar que Ryan afirmou estar descrevendo o futuro —o que acontecerá caso Hillary Clinton vença—, e não o presente. Mas Hillary está essencialmente propondo uma agenda de centro-esquerda, uma extensão das políticas que o presidente Barack Obama conseguiu implementar em seus dois anos iniciais de mandato, e fica bem claro que os comentários de Ryan foram uma forma de retratar o efeito desse tipo de política.

De acordo com ele, é um péssimo efeito. Ele disse que o futuro traria “uma sombra, um tom cinzento, às coisas”, e que seríamos dominados por “uma burocracia fria e insensível”. Os Estados Unidos vão se tornar um lugar no qual “a paixão —a essência mesma da vida— estará extinta”. E esse é o tipo de país que “Hillary fará qualquer coisa para ter”.

Os Estados Unidos atuais se parecem minimamente com isso? Não. Temos muitos problemas, mas dificilmente se pode afirmar que vivemos em um miasma de desespero. Deixemos de lado as estatísticas do governo (que metade dos partidários de Trump consideram completamente indignas de confiança); o instituto de pesquisa de opinião pública Gallup aponta que 80% dos norte-americanos estão satisfeitos com seu padrão de vida, ante 73% em 2008, e que 55% deles consideram estar “prosperando”, ante 49% em 2008.

E existem bons motivos para esses bons sentimentos: a recuperação depois da crise econômica foi mais lenta do que deveria ter sido, mas o desemprego é baixo, a renda subiu bastante no ano passado e, graças à reforma da saúde de Obama, o número de norte-americanos providos de planos de saúde é maior que nunca.

Assim, a visão de Ryan sobre os Estados Unidos não se parece em coisa alguma com a realidade. Mas seria completamente familiar para alguém que tenha lido “A Revolta de Atlas”, de Ayn Rand, na adolescência.Hoje, o presidente da Câmara nega ser fã de Rand, mas se bem possamos fingir que acreditamos que ele abandonou o culto, o culto não o abandonou.

Como Rand —que estava basicamente escrevendo sobre os Estados Unidos da era Eisenhower!—, ele vê o mundo horrível que as políticas progressistas deveriam ter criado, e não o país falho mas repleto de esperança no qual de fato vivemos.

Por que, então, a direita moderna odeia os Estados Unidos? Não existe muito em comum entre a maneira pela qual Trump trafica com o medo e a maneira de Ryan de fazer a mesma coisa, mas o alinhamento entre seus interesses é evidente.

As pessoas que Trump representa desejam reprimir as minorias e privá-las de direitos; os grupos de interesse endinheirados que apoiam o conservadorismo ao estilo de Ryan desejam privatizar e desmantelar a rede de segurança social, e estão dispostos a fazer qualquer coisa para chegar a esse objetivo.

A grande questão é determinar se criticar pesadamente os Estados Unidos pode realmente representar uma estratégia política vitoriosa. Logo descobriremos.

* PAUL KRUGMAN é Prêmio Nobel de Economia (2008), é um dos mais renomados economistas da atualidade

(Tradução: PAULO MIGLIACCI)

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