Torcedores agem como macacos
Da FOLHA
Por MARILIZ PEREIRA JORGE
“De que adianta o Brasil ter estádios padrão Fifa para receber torcedores que agem como animais?”
Quem já viu um jogo de rúgbi sabe que é quase uma luta de MMA com bola. Agarra daqui, agarra dali, pula em cima, se joga por baixo. Não é à toa um dos esportes coletivos mais violentos e com mais lesões.
Mas se dentro do campo o bicho pega, fora é tudo paz e amor. Cheguei a frequentar estádios durante o campeonato australiano, na época em que morei lá.
A rivalidade entre times e cidades é enorme. Mesmo assim, as torcidas se misturavam. Bebe-se muito no país. Australianos são famosos beberrões. A provocação comia solta, no mesmo ritmo que o público entornava copos de cerveja.
Assistimos ao jogo. Torcemos. Respondemos às provocações e todo mundo foi embora são e salvo. Alguns mais bêbados que os outros. Dividindo trens, ônibus, aguardando táxis no mesmo ponto. Australianos não dirigem quando bebem.
Não dirigem. Não brigam com a torcida adversária. Não destroem estádios. Nem quando bebem, nem sóbrios. Isso foi há uns 10 anos. Imaginava como seria bacana se esse comportamento se repetisse aqui.
De lá para cá, depois de ter sediado uma Copa, com poucos incidentes, parte importante da torcida brasileira ainda age como troglodita.
Os vídeos com torcedores do Grêmio arremessando assentos do Beira-Rio na torcida do Inter no último domingo parecem coisa de homens das cavernas. “Eu não comecei, apenas imitei o que os outros estavam fazendo”, disse um dos presos.
Lembrei da mesma torcida gremista chamando o jogador Aranha de macaco, naquele episódio lamentável do ano passado. Ora, macaco é quem imita o comportamento de seus pares para socializar.
Macaco é o bicho que não tem discernimento para saber que, mesmo que um amiguinho arremesse uma cadeira na cabeça do outro, não deveria fazer o mesmo. Mas faz.
Então, pergunto: quem são os macacos?
Concluo que a torcida do Grêmio está cheia deles, ainda que só dois tenham sido presos no dia da chuva de cadeiras. Também depredaram o forro de um banheiro, arrancaram tampas e sanitários. Nem mulheres ficaram de fora. Uma das portas de um banheiro feminino foi destruída.
Mas tem macaco em todas as torcidas. A do Palmeiras quebrou 877 cadeiras na Arena Corinthians no ano passado. Corintianos destruíram patrimônio do Allianz Parque e nem o Itaquerão escapou no jogo de estreia por causa do “vexame” do time. Além da quebradeira, fizeram xixi e outras coisas no chão dos banheiros.
Torcedores do São Paulo mostraram seus descontentamento por terem perdido do Corinthians na Libertadores, em fevereiro, fazendo o quê? Destruindo cadeiras. Que culpa têm as coitadas das cadeiras?
Você deve lembrar das duas privadas arremessadas do pavimento superior do Arruda, em Recife, que mataram um torcedor num jogo entre Santa Cruz e Paraná. Até hoje não se sabe quem foi o responsável.
Imagine se a bebida é liberada para esses ignorantes.
Depois do incidente na Arena Corinthians, que teve um prejuízo estimado em mais de R$ 400 mil, a direção do clube disse que avaliava tirar as cadeiras em dias de clássico e deixar os torcedores no cimento. Poderiam colocar jaulas pra que não se matem. Quem sabe distribuir bananas para os mais exaltados.
De que adianta ter estádios padrão Fifa para receber torcedores que agem como animais?

