A derrota não é só da seleção. É do futebol brasileiro
Por ROQUE CITADINI
A vexatória derrota da seleção brasileira para os alemães, na tarde de ontem no Mineirão, é mais do que uma goleada inesperada. É uma derrota profunda do futebol brasileiro e seus responsáveis vão muito além dos onze que estavam em campo.
Como é possível termos chegado a uma seleção tão fraca como esta? Sem qualquer vacilação, acho que é a pior geração que vejo para uma Copa desde de 1958. É pior até do que o grupo que embarcou para a África do Sul. O futebol brasileiro que em todas as Copas sempre apresentou um grande número de craques, neste trágico ano, chega com um grupo de jogadores médios sem qualquer brilho diferenciador. O próprio Neymar é mais esperança do que realidade. Os outros vão de médio para baixo.
Se no passado o futebol brasileiro era acusado de ser pouco disciplinado em campo (e fora dele), e de jogar um futebol quase irresponsável, hoje o quadro é outro: é uma geração de jogadores ruins que ninguém quer ver no seu clube de coração.
Se na África do Sul já era ruim, agora piorou mais ainda. Não há terapia motivacional, psicológica, familiar ou paternal que salvem um grupo de jogadores ruins.
Mas, qual será a diferença que produzia grandes seleções, com grandes craques?
Existe uma resposta.
No passado, os jogadores eram revelados nas categorias de base dos clubes ou em associações menores. Tinham um objetivo na sua vida futebolística: subir para a divisão principal. Após esse período, queriam ser titular de um grande clube brasileiro. Queriam jogar no Corinthians, Flamengo, Palmeiras, Vasco etc. para depois chegar até a seleção (objetivo máximo).
Na seleção e nos clubes populares, os grandes jogadores do Brasil ganhavam notoriedade (e algumas vezes dinheiro). Após este sucesso, alguns iam para fora do país “fazer seu pé de meia”. Assim foram todos; Pelé,Didi, Rivelino, Zico, Sócrates, Romário, Ronaldinho e tantos mais. Primeiro fizeram nome no Brasil, só depois ganharam voos para o exterior.
Isso tudo mudou.
As categorias de base dos clubes foram destruídas. Foram tomadas por uma situação promíscua entre dirigentes, empresários, jornalistas e ex-jogadores que têm como objetivo único caçar os talentos com 12, 13, 15, 18 anos e levar para a Europa. Por preço pequeno -onde os clubes quase nada ganham- os jogadores vão viver a aventura de buscar o sucesso onde milhares vivem o fracasso. Sem qualquer formação sólida do futebol brasileiro (perdendo as características nata de nosso principal esporte), alguns ganham notoriedade, muito embora sem qualquer habilidade fora do comum.
Com a marca do Brasil, vivem uma experiência de marketing que as ligas europeias conseguem fabricar. Jogadores médios viram estrelas em transferências milionárias (quase sempre sem explicação) que o tornam ídolos. Não são craques, mas são jogadores/celebridades do qual o futebol europeu é especialista.
“Brilhando” na Europa, com marketing e transferências milionárias (e contabilmente inexplicáveis), seu passo seguinte -ou sua necessidade seguinte- é a seleção brasileira. Não porque busque sucesso, mas para alavancar ainda mais o dito marketing de suas equipes e empresários europeus. Só querem saber dos novos e futuros negócios.
A destruição das categorias de base nos clubes brasileiros criou jogadores nascido no Brasil e “feitos” na Europa. Este caos na formação de base no Brasil é generalizada. Até o nosso Corinthians, outrora um clube que sempre lançava jogadores (médios, bons e craques), foi tomado por este quadro assustador.
Com quase todos os jogadores do Timão da categoria de base sendo partilhados com “empresários” , o clube quase não revela ninguém porque o objetivo é fazer pequenos negócios onde a participação do clube chega a ser simbólica.
Há pouco tempo o clube -em uma atitude insana- anunciou que abriu um escritório em Portugal para “facilitar transferências” de jogadores das categorias de base. Entre as centenas de jogadores que passaram pela base do Timão nos últimos anos, quase todos foram para a “aventura na Europa”.
Alguns (acredite, São Jorge!) nem jogaram pelo Corinthians . Foram apenas registrados como jogadores nossos, para ganhar a grife e ter a negociação facilitada com clubes “parceiros” europeus.
Este quadro não é só no Corinthians. Esse quadro é pintado em quase todos os clubes. É daí para pior.
Com isto, vemos uma seleção sem nenhum jogador importante de Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Flamengo Vasco etc . Este clubes -que outrora formavam os “fora de série” brasileiros- estão com outro foco. E a seleção é formada por “brilhantes” jogadores das Ligas Europeias, que saíram daqui moleques e entraram na máquina de promoção do velho continente.
Esta realidade dramática das categorias de base -em boa medida- se repete, também, nas divisões superiores. Tristemente.
Se faltam craques, faltam também técnicos. Vivendo uma bolha salarial nunca vista, com ganhos mensais de 500, 600, ou 700 mil -ou até mais- nossos técnicos pouco evoluíram nas últimas décadas. O retrato é uma seleção onde as principais jogadas são chuveirinho, ligação direta entre defesa e ataque e escanteios.
Praticamente todos os times refletem o que foi feito na seleção. O toque de bola, o drible, e a jogada leve e criativa de linha de fundo: tudo foi abandonado. Nossas equipes jogam como as europeias -ruins- onde não há espaço para a brasilidade.
Nossos técnicos ganham muito e aprendem pouco. Como eles são peça importante neste “negócio” que misturou empresários, dirigentes, jornalistas etc, seguem com seu espaço cada vez maior.
Uma boa mudança no futebol brasileiro -que anuncie um futuro melhor- começa por enfrentar o problema da formação de base e as questões técnicas, táticas e de preparação física.
Não há dúvida que a seleção foi um vexame, mas precisamos tirar deste fato um novo caminho. Ou enfrentamos esses problemas colocados acima ou vamos caminhar na demagogia “bolerística” que não leva a lugar nenhum.
Aliás, leva sim. Leva a derrotas vexatórias como a de ontem.

