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Palavra do Magrão

Público e violência

http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=3735

Por SÓCRATES

Há alguns anos assistimos a uma verdadeira barbárie no Estádio do Pacaembu, envolvendo duas torcidas rivais alimentadas por quilos de entulhos empilhados no tobogã, em obras àquela altura.

O episódio deixou centenas de feridos e causou a morte de um adolescente. Numa partida final da Copa dos Campeões da Europa, entre Liverpool e Juventus, na Bélgica, dezenas de pessoas morreram, esmagadas contra os alambrados do estádio, diante da fúria incontida dos torcedores ingleses. Agora mesmo há um movimento para o Liverpool não jogar no dia 15 de abril pela mesma Copa dos Campeões, devido a outra tragédia ocorrida no futebol inglês na mesma data do ano de 1989. Foi o estopim do chamado Relatório Taylor, que transformou totalmente o esporte na ilha britânica.

Nas Eliminatórias para uma Copa do Mundo, na Guatemala, houve mais uma série de mortos em um tumulto provocado pela venda de milhares de ingressos, além da capacidade do estádio.

E, no domingo 22, assistimos a mais um lamentável espetáculo oferecido pelos poucos torcedores do Santos dispostos a presenciar a partida contra o Corinthians, na qual a polícia espalhou como nunca toda a violência acumulada nas ruas.

O germe para tamanho mal nasce das imensas carências com que convive diariamente boa parcela da humanidade. O resultado é uma gigantesca onda de insatisfação social que degenera a personalidade de cidadãos e explode em forma de violência, protegida pela massa humana. A fome, a miséria e a falta de educação ou socialização e de conscientização são ingredientes do caldo cultural propício a esse tipo de comportamento em nossa sociedade.

No Velho Mundo, a falta de perspectiva, a impossibilidade de criar, a difícil inserção profissional e a rigidez da educação são características particulares de sociedades que diminuíram a injustiça, mas não conseguem resolver questões básicas em um mundo cada vez mais competitivo. Ações drásticas são necessárias, condutas preventivas e inúmeros estudos se processam para que o mal seja minimizado.

Aqui mesmo, no estado de São Paulo, o grau de violência caiu de forma relevante, há algum tempo, apenas com a proibição das torcidas organizadas, cuja ação era facilitada pela uniformização de suas vestimentas, apesar de os gritos de guerra, cada vez mais agressivos, seguirem ecoando dentro dos estádios.

Infelizmente, em cada período de calmaria nota-se o relaxamento das condutas inibitórias. É necessário manter a atenção e os cuidados para preservar todos os envolvidos nesses eventos. A sequela esportiva é imensamente inferior à social. E desnuda uma realidade muitas vezes ignorada: a maior parte de nossas competições não possui sistemas de segurança adequados e, além disso, eventualmente convivem com irresponsáveis viciados na proteção econômica, política, social ou mesmo na incompetência de nossa Justiça. Este quadro colabora decisivamente para o afastamento dos estádios de parcela importante da população amante desse esporte.

Assim como é anômalo o horário estipulado para algumas partidas de futebol, como acontecerá em 2 de abril. É consequência de uma nova noção de tempo que privilegia a receita financeira dos clubes, dando a impressão de que o público deixou de ser a razão maior na confecção do calendário esportivo. Fato que demonstra extremo descuido em relação àquela parcela do espetáculo que o torna um imenso caldeirão de emoções e, por isso mesmo, o segmento de entretenimento mais popular do planeta.

Para termos boa audiência nas transmissões de jogos pela televisão, é fundamental ter em mente a necessidade de encontrar, do outro lado da tela, interessados naquele tipo de programação. E estes só existem porque foram “contaminados” por esse esporte. Para haver “contaminação”, deve haver necessariamente contato com o agente causador. E isso só ocorre quando se vai a um campo de jogo e nos deixamos levar pelas emoções surgidas no espetáculo com eco nas arquibancadas.

Estimular a participação de um número cada vez maior de pessoas em torno do esporte tornará mais forte a sua influência não apenas no futebol, mas também na sociedade como um todo, pela sua capacidade de socialização e mobilização. Por isso devemos tomar mais cuidado com a gestão esportiva, para esses objetivos serem alcançados plenamente.

 

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Um comentário sobre “Palavra do Magrão

  1. LHP - ARQUIBANCADA

    Grande Dr Socrates.

    Reproduziu de maneifra responsavel suas colocações e nem um momento marginalizou o ser humano que frequenta estádio seja ele(a) organizado ou não. É isso ai Dr devemos debater, discutir as causas com coerência para depois depois julgar os efeitos, e não ficar simplesmente se queixando e jogar a conta no colo de quem frequenta os jogos.

    “O Brasil é o único país onde puta goza, traficante é viciado e pobre é da direita.”

    Valeu Dr obrigado por ter honrado a camisa do nosso S.C.C.P.

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