Com a chegada de Caymmi reina paz no céu
Por BONI
As coisas andavam agitadas por lá.
O poetinha Vinicius de Moraes corria atrás de um novo amor e de um velho whisky.
O Tom Jobim as voltas com um puro cubano e reclamando da demora de um choppinho “pipoca”.
Para quem não sabe o Tom chamava de ” pipoca” aquele choppinho que você toma de uma vez e logo estoura outro na sua frente.
Noel procurava uma roupa para ir ao samba que S.Pedro convidou.
Ary Barroso andava preocupado com os últimos desempenhos do Flamengo .
Pixinguinha catava colcheias e semi-colcheias, fusas e semi-fusas para concluir um improviso.
Dolores Duran colhia flores para a noite do seu bem.
Maysa e Elis estavam empenhadas na produção do espetáculo “Intérpretes Celestiais”.
Enquanto isso o CEO do CÉU estava nervosíssimo com as demandas terrestres.
Ceo é o Chief Executive Officer, o chefão geral.
Ele não está agüentando o aumento de população.
E, numa reunião brava, queria saber como estava a produção da fábrica de almas.
Tem gente esperando e a entrega não pode atrasar.
E os pedidos de ajuda? : – Não estamos dando conta, dizia ele exaltado.
S. Paulo sugeriu um aumento de quadro. :- Precisamos admitir mais santos. É muita gente pedindo. Não dá para atender.
S. Pedro balançando as chaves,disse: – Não dá. Que mania de querer resolver as coisas aumentando quadro. Não temos orçamento para isso. Temos é que diversificar os pedidos e dividir entre todos os santos. É uma questão de marketing.
Um caos, céus.
Mas eis que chega Caymmi.
Todos param diante de sua serenidade.
Os cabelos confundem-se com as brancas nuvens.
O olhar traz candura e amor.
O Ceo do Céu, pergunta: – Caymmi, você morreu?
E a resposta vem com sonoro grave: É doce morrer no mar. E lá, tudo entra em calmaria. Nós aqui é que ficamos tristes.
Ainda pequeno, nos anos quarenta, o vozeirão dele me chamou atenção.
Perguntei ao meu pai, que era violonista, quem era aquele cantor tão diferente.
Ele me explicou que era um baiano, que mais que cantor era um compositor genial.
Jamais pensei que um dia o conheceria .
Mas o conheci, logo que comecei minha carreira.
A foto postada no final foi tirada na Rádio Mayrink Veiga, no Rio.
Todos já se foram.
Menos eu.
Adivinhem só quem será o próximo da foto a ir embora.
Não importa, pois ninguém fica para semente.
O grande Dorival Caymmi atendendo um pedido nosso fez a abertura de Gabriela para a novela da Globo.
Eu Não sabia também que me tornaria amigo e admirador de Nana Caymmi, essa cantora impar de personalidade forte e cheia de amor para dar.
Quando fizemos o Sitio do Pica Pau Amarelo, versão Globo, eu, o Casé e o E.Pacote chamamos o Dori Caymmi e entregamos a ele, com toda liberdade, a incumbência de produzir a trilha.
Deu no sucesso que deu.
A família Caymmi, com Nana, Dory e Danilo, representa uma marca de autenticidade na música popular brasileira.
Não há dúvida que o velho Caymmi foi o mais original dos compositores brasileiros.
Não se inspirou em ninguém e inspirou todo mundo.
Eu nasci e vivi embalado por canções de Caymmi.
Não sou saudosista.
Mas tenho pena dessa geração que, não terá como trilha sonora, coisas tão simples e poéticas como as que Caymmi deu a minha geração.
Obrigado Caymmi.
Adoce o céu com sua paz.
Beijos.
Boni.
http://bloglog.globo.com/boni/
Rádio Mayrink Veiga – 1957
Da esquerda para direita: Edmundo de Souza, diretor artístico da Rádio; Francisco de Abreu, diretor da OVC, eu mesmo, Haroldo Barbosa, Dorival Caymmi, Sérgio Porto e Rodofo L. Martensen.


Ai apareceu a Dercy Goncalves e esculhambou com tudo!