O mito do goleiro estrangeiro

Por ROBERTO VIEIRA

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Quando o arqueiro Pablo Miglione do Boca Juniors papou um soberbo peru contra o Fluminense, os mais antigos não puderam segurar o riso.

É que todos conviveram com o mito do goleiro estrangeiro.

Durante o século XX o Brasil conviveu com algumas lendas tidas como verdades.  A gente não tinha petróleo, comunista comia criancinha, goleiro bom era goleiro de fora. Então o São Paulo foi buscar Jose Poy. Ídolo nas décadas de 50 e 60 no arco tricolor. O Atlético-MG se socorreu de Mazurkiewicz. O Santos de Pelé importou Cejas. O Bahia trouxe Buttice, que depois rumou para o Corinthians.

O Brasil produzia craques em todas as posições, menos no gol. A exceção era Gilmar. Mas Gilmar era tão calmo que não podia ser brasileiro segundo os críticos.

A Copa de 70 foi o apogeu da crise. Gilmar havia se despedido da canarinha. Félix assumiu seu lugar. Veio o jogo com a Inglaterra. Banks fez milagre na cabeçada de Pelé. Félix fez milagre na cabeçada de Lee. Mas Banks era inglês, jogava de luvas. Félix era nacional e insistia em defender o pão nosso de cada dia de mãos desnudas. Veio o jogo com o Uruguai, Pelé tirou Mazurkiewicz pra dançar, Félix salvou o Brasil de uma prorrogação com uma defesa cinematográfica aos 44’ do segundo tempo. A imprensa elogiou a coreografia do goleiro uruguaio e ignorou o número 1 do Brasil. Cega.

Mas uma coisa deixava os comentaristas com uma pulga atrás da orelha: Por que os estrangeiros não brilhavam tão intensamente no Brasil?

A explicação era simples. Foi dada por Cejas em entrevista quando defendia o Santos. O problema estava nos nossos atacantes. Na Argentina, na Alemanha, na Inglaterra todo mundo só rezava o Pai Nosso. Gol, só de cartilha. Todo goleiro já sabia o que ia acontecer. Aqui, não!

Cejas foi brincar de se adiantar e levou um chapéu de Dirceu Lopes. Saiu pra enfrentar Leivinha e tomou uma caneta. Depois de muita vaia descobriu que no Brasil goleiro era profissão perigosa. Aliás, o próprio Pelé ia destruindo o mito por onde passava. Viktor da Tchecoslováquia quase toma um gol do meio de campo. E o milésimo gol foi comemorado contra o argentino Andrada que esmurrava o chão inconformado. Mito?

De tanto enfrentar os melhores atacantes do mundo, de tanto aprender com os arqueiros que vinham de fora aos milhares, o goleiro brasileiro hoje é o melhor do mundo.  Fernando Henrique provou isso contra o Boca. Claro que de vez em quando ainda aparece um órfão do passado. Gente que jura de pés juntos que Oliver Kahn é melhor que Marcos.  Máspoli superior à Barbosa. Pato Abbondanzieri mais seguro que Júlio César…

Mas é só da boca pra fora do campo. Dentro das quatro linhas goleiro bom é goleiro Made in Brazil.

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9 Comentários

  1. Abaixo a ficha ténica do jogo Brasil 3 x 1 Urguai:
    Gols: Cubilla, aos 19, e Clodoaldo, aos 44 minutos do primeiro tempo; Jairzinho, aos 31, e Rivelino, aos 44 minutos do segundo tempo
    Árbitro: J. M. Ortiz de Mendibíl (Espanha)
    Local: Estádio Jalisco (Guadalajara, México)
    Público: 51 mil pessoas
    Duas observações sobre o texto:

    a) como houve cabeçada uruguaia aos 44′ do segundo tempo, se o gol do Rivelino foi neste minuto de jogo?
    b) esqueceu-se o autor do texto do gigante uruguaio Rodolfo Sergio Rodríguez y Rodríguez , um dos maiores goleiros que os campos brasileiros já viram!

  2. Vamos ver se este Fernando Henrique é tão bom na próxima quarta-feira !

  3. Sorry Roberto, mas Abbondanzieri é sim melhor e mais seguro que Júlio César.

    De resto, concordo com o texto.

    Parabéns pela análise!

  4. Sim, já tivemos goleiros estrangeiros que marcaram época no futebol brasileiro (além dos já citados no texto e Rodolfo Rodriguez – citado pelo Divanio):
    Goycochea, Roberto Fernandez, Fillol.

    Mas também tivemos cada tranqueira por aqui:
    Johnny Herrera, Tadic, Tavarelli, Saja…

    Mas não troco nenhum goleiro estrangeiro (pode ser alemão, italiano, inglês…) por um brasileiro!

    Abraços

  5. Dizer que os goleiros estrangeiros são horríveis só porque o reserva do Boca Juniors frangou feio chega a ser ridículo. Quiçás você desconheça alguns fatos, por exemplo, que o Migliore é um goleiro reserva, que o titular Caranta, um excelente goleiro, e que jogou quatro meses no sacrifício esse ano devido a um problema no joelho (que arrebentou de vez nos jogos contra o Cruzeiro, quando ele jogou muito mal).

    Migliore é filho de líderes de La Doce, uma importante torcida organizada do Boca, e por isso está onde está, beneficiado pela daninha relação entre clube e torcida. É claro que o Fluminense não tem nada a ver com isso, problema do Boca, mas daí a dizer que os goleiros brasileiros são os melhores do mundo por causa de uma falha do Migliore chega a ser risível.

    Vá comparar os goleiros brasileiros com o Buffon, com o Casillas, com o Van der Sar, o Lehmann, o Cech, o Villar.

    Infelizmente, meu caro Roberto, Máspoli sim foi muito melhor que Barbosa, Yashin e Carrizo tinham muito mais técnica e coragem que Gilmar, com todo o respeito que o bicampeão merece, e Banks, Mazurkiewicks, Meier, Fillol, Andrada e tantos superaram a Félix e Manga por muito.

    Não pára por aí: Zoff valeu por dois Carlos, Rodolfo Rodriguez era uma muralha enquanto Valdir Peres foi uma porteira aberta, imagina então comparar os excelentes arqueiros belgas Pfaff e Preud´Homme com Acácio e Taffarel, seria de uma covardia sem tamanho.

    Pessoalmente, prefiro Kahn a Marcos, mas não por muito, Julio Cesar é sim melhor que Abbondanzieri, mas não melhor que o novo Carrizo argentino.

    É inegável que os goleiros brasileiros melhoraram muito, mas por favor, faça umas comparações com goleiros de verdade, e não com o Migliore, senão soa a patriotada chauvinista, coisa que se espera de um Galvão Bueno e não de você.

  6. Isso é impressionate, todos crucificam Valdir Peres por um frango, ele já defendeu penalti em final e fez milagres pelo São Paulo, Junto com Poy, citado no texto, Zetti e Rogério um dos maiores goleiros da história do clube

  7. Valdir Peres não pode entrar na lista de grandes goleiros do Brasil, é só lembrar da seleção de 1982, era quase perfeita não fosse pela falta de goleiro (valdir peres) e centro-avante (chulapa) a altura do resto do plantel… faltaram naquele time Leão, João Leite ou Carlos (todos melhores v.peres) e o Reinaldo com a nove (infelizemente ele se machucou antes da copa)….
    Quanto ao resto dos comentários,.. concordo em partes, o Brasil possui goleiros que não deixam a desejar a nenhum goleiro do mundo, mas daí a dizer que temos os melhores goleiros do mundo é ridículo, tá pior que o gaysão bueno… rss….
    Pra mim o melhor do mundo hoje é Buffon e o Júlio César é um dos melhores….

    Abraços;

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