A corrupção nos ingressos

Da Tribuna da Imprensa


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Ingressos grátis no Maracanã opõem clubes e federação do Rio


O torcedor que enfrenta as bilheterias do Maracanã tem se espantado quando o locutor anuncia o público presente e o pagante. O motivo: o número dos que não pagam ingresso para assistir aos jogos no estádio é, para dizer o mínimo, estranho. No clássico entre Fluminense e Vasco, realizado no domingo, quase 10 mil pessoas não desembolsaram um centavo sequer para acompanhar a partida.


O público total foi de 50.548 pessoas, sendo que 40.871 pagaram ingressos e outras 9.677 entraram de graça. Um dia antes, Flamengo e Sport bateram o recorde de público do Campeonato Brasileiro, com 51.552 pagantes. No entanto, havia no Maracanã 61.250 torcedores – ou seja, 9.698 entraram de graça.


“Isso é um absurdo, uma verdadeira evasão de renda. E é por isso que o Maracanã vai ser privatizado. A gente leva prejuízo de pelo menos R$ 40 mil por jogo”, protestou o presidente rubro-negro, Márcio Braga. Ele informou que o Flamengo vai participar da licitação do estádio, que deve sair no fim de outubro. “Se ele for nosso, a farra do boi vai acabar”.


De acordo com a diretoria do clube, a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj) ganha 1.800 bilhetes por partida graças a uma parceria com a Superintendência de Desportos do Rio de Janeiro (Suderj), administradora do estádio. Desse total, segundo Márcio Braga, a maior parte fica com a entidade. “É mais um absurdo de uma federação envolvida em crimes como formação de quadrilha, estelionato, falsidade ideológica e fraude processual”.


A Ferj rebateu a acusação. “Os clubes são os responsáveis pelos ingressos e os distribuem à vontade”, disse seu vice-presidente jurídico, Cláudio Mansur. Ele garantiu que a entidade não recebe mais do que 200 “cortesias” por jogo. “O Márcio Braga é um boquirroto, perdedor, fanfarrão e ataca os outros para esconder seus problemas”.


Mansur reconheceu, contudo, como “acima da expectativa” a diferença entre público pagante e presente no Maracanã na temporada. “Está demais, estranho mesmo”. Aliado político do Flamengo contra a Ferj, o Botafogo não acredita em responsabilidade da entidade na polêmica. “A federação nada tem a ver com isso. Ela, os clubes e a Suderj ganham ingressos. Todo mundo tem um pouco de culpa”, afirmou o vice-presidente de Futebol do clube de General Severiano, Carlos Augusto Montenegro, sem dizer quantas entradas de cortesia cabem a cada parte.


Divulgação


A Secretaria de Turismo, Esporte e Lazer do Estado já detectou o problema e adotou uma medida para prestar contas nos jogos do Maracanã. Desde o dia 26 de agosto, data do confronto entre Flamengo e Goiás, passou a informar, por meio do sistema de som e dos telões do Maracanã, a renda e o público discriminados ao fim de cada partida.


No clássico Fluminense e Vasco, por exemplo, a secretaria divulgou que a Ferj, a Suderj e os dois clubes receberam ao todo 1.902 convites de “cortesia”. Também têm direito à gratuidade idosos, portadores de necessidades especiais, menores de 12 anos, além de donos de cadeiras cativas e freqüentadores de camarotes, tribuna de honra e tribuna desportiva.


“São distribuídos aos clubes, à Suderj e à Ferj cerca de mil cortesias, em média, por jogo”, disse o secretário de Esporte e Lazer, Eduardo Paes, também presidente da Suderj. “O estádio agora está mais organizado. No início, eu me assustava com essa discrepância. Mas depois pedi que detalhassem o que ocorria e constatei que não há caronas”.

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