Fazendo-se de surdo, por Sócrates
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Fazendo-se de surdo
As histórias se repetem. Quando o dinheiro e a palavra, pessoal ou profissional, se confundem,o resultado quase sempre é ruim. Será o real eternamente imaginário?
Sócrates
Alguém muito próximo passou por graves problemas que envolveram aspectos financeiros, políticos e até policiais. Isso aconteceu depois de ele ter feito uma série de denúncias de ações suspeitas de indivíduos que detinham cargos públicos. Foi um período de grandes frustrações, reforçadas por inúmeras ameaças que atingiam até os que conviviam com ele. Foi nessa ocasião que os laços que o prendiam a um amigo chamado Márcio se estreitaram ainda mais. Passavam a se ver praticamente todos os dias e andavam para cima e para baixo como gêmeos siameses.
Márcio servia para tudo: companhia, segurança, ombro amigo, ouvido atento, colo carinhoso e confidente. Tudo aquilo que lhe faltava era reposto pelo parceiro. Mas aquelas ações que aparentemente eram fruto da amizade que os unia foram o ponto de partida para o distanciamento dos dois. Com o passar do tempo, o grau de endividamento tornou-se uma lâmina a sangrar anos de convivência e as cobranças passaram a ser tão incisivas que se aproximaram do insuportável.
Foi aí que decidiram fazer um acordo que contemplasse as necessidades de ambos. Sempre que houvesse um aporte por parte de Márcio, ele assinaria promissórias do mesmo valor que teriam como lastro as propriedades em seu nome. Passado o furacão daquele período, gradualmente ele devolveria o que lhe fora emprestado em troca das notas que emitira. Infelizmente as coisas não andaram exatamente como esperava. Muito tempo se passou até que resolvesse se afastar daquele ambiente tão pouco amistoso.
Quando, mesmo contra a sua vontade, abandonou aquela luta inglória e mudou-se para bem longe dali, pôde finalmente respirar com mais tranqüilidade e as oportunidades ressurgiram. A vida voltava ao normal e era chegada a hora de pagar todas as dívidas. Procurou por Márcio, mas esse estava estranho e distante. Mesmo assim, prontificou-se a resolver imediatamente as pendências. No entanto, tudo o que conseguiu do antigo companheiro foi um silêncio esclarecedor. Percebeu ali que nada do que fora acordado seria respeitado e que quase tudo aquilo que havia conquistado durante toda uma existência corria sérios riscos de não mais lhe pertencer.
Tentou convencer o antigo amigo do absurdo que estava por realizar, mas esse se fez de surdo e as argumentações de nada adiantaram. Destruído pela insensatez daquele gesto, resignou-se com a sua falta de cuidados ao realizar um acordo sem respaldo legal e a descoberta da falta de consciência ética de quem sempre fora seu parceiro.
Tenho uma história um pouco diferente desta com outro Márcio, o Braga, presidente do Flamengo. Quando fui contratado pelo clube, ele era uma eminência parda da instituição. Fora campeão do mundial com aquele célebre time de Zico, Júnior e cia. Após alguns meses da minha chegada, ele voltou a ser eleito mandatário máximo do clube. Quando resolvi parar de jogar em 1987, exatamente para não causar problemas e constrangimentos ao clube, foi com ele que fiz um acordo, pois ainda tinha créditos que não haviam sido cumpridos pelo Flamengo. Acertamos que eu teria a receber a cota de três dos quatro jogos que faziam parte (a mais importante no aspecto financeiro) do contrato que eu assinara com o clube depois da minha experiência italiana. Infelizmente isso jamais se concretizou. Tentei de todas as formas fazer um acerto com o clube nos anos seguintes, mas sempre em vão.
Decidi então procurar a Justiça. Há mais de dez anos o caso rasteja nos bastidores do Judiciário, como, aliás, é praxe neste país dos absurdos. Há poucos dias recebo a notícia de que teria de buscar novos documentos para comprovar a minha requisição – ela foi indeferida nas instâncias superiores, onde, imagino, o saber dos magistrados e o direito são diferentes – como se o documento assinado na ocasião, com todos os detalhes esclarecidos, fosse uma folha em branco. O pior é que devo achar o contrato que fiz com o Santos há quase 20 anos e, além disso, uma declaração de que os santistas sabiam do acerto com o Flamengo – como se o Santos tivesse alguma coisa a ver com a história. Enquanto isso, mais uma vez imagino, Márcio, novamente presidente do Flamengo, assiste de camarote (quem sabe com um sorriso nos lábios) às minhas dificuldades em provar que tenho esse direito e ele, mais que qualquer um, sabe que não é nenhuma invencionice. Será que o que temos hoje é uma endemia de se fazer de surdo como se o real fosse eternamente imaginário?
