O verdadeiro Henry Sobel – Parte 2
Rompe-se o equilíbrio. A linha dura do golpe militar
começa a perder espaço.
Nesta ocasião, devemos lembrar ainda das pessoas
que não se calaram, pessoas que dão uma maior dimensão
ao ser humano. A indignação vencera o medo
em tempos duros e difíceis. Mil perdões se não
cito outros por esquecimento ou por ignorância.
Nossa homenagem a Clarice Herzog, mulher e esposa
que se transforma em leoa para provar que
Herzog havia sido assassinado. Seu grito lancinante
“mataram o Vlado” percorre e sacode todo o Brasil.
Nossa homenagem aos advogados Heleno Fragoso,
defensor de tantos presos políticos, e a Sérgio
Bermudes, que abraçaram a causa de Vladimir Herzog,
sem temer possíveis represálias.
Nossa homenagem ao Juiz Márcio José de Moraes
que deu a sentença, em 25 de outubro de 1978, considerando
a União responsável pela prisão, tortura e
morte de Vladimir Herzog.
Nossa homenagem ao Rabino Henry Sobel, participante
ativo nas grandes causas da coletividade judaica
e do diálogo ecumênico O Rabino Sobel recusase
a enterrar Herzog no lugar destinado aos suicidas
conforme manda a tradição judaica. A farsa não seria
aceita. Acompanha a família em toda sua a luta e sofrimento.
No Cemitério Israelita, no enterro, cerca
de 1.000 pessoas e muitos agentes da repressão.
Nossa homenagem ao Cardeal Dom Paulo
Evaristo Arns, que usou seu espaço para denunciar
a tortura e falava sobre liberdade e dignidade humanas,
para desgosto dos militares. Aceitou a proposta
e foi um dos incentivadores da missa ecumênica realizada
na Catedral da Sé. 8.000 pessoas compareceram,
vencendo as barreiras policiais. A missa foi celebrada
pelo próprio D.Paulo, por Dom Helder Câmara,
Arcebispo de Olinda e Recife, pelo Rabino
Sobel e pelo Reverendo James Wright. Citando palavras
bíblicas, Dom Paulo, com sua voz tão característica,
inicia sua oração “ Maldito aquele que tem
as mãos manchadas pelo sangue de seu irmão “.
Nossa homenagem a Audálio Dantas, Presidente
do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado
de São Paulo na época. Liderando os jornalistas,
fez aprovar a proposta de missa ecumênica,
sugestão de David de Moraes, em assembléia de 300
jornalistas.
No enterro de Herzog, lembra Castro Alves:
Senhor Deus dos Desgraçados,
Dizei-me Vós, Senhor Deus,
se é loucura… se é Verdade
tanto horror perante os céus.
Na convocação para o enterro, já denunciava as
prisões arbitrárias e o prolongamento da incomunicabilidade
acima dos dez dias legais. Na missa, no
seu pronunciamento, preocupou-se com a segurança
dos presentes – pediu que todos saíssem em pequenos
grupos e em silêncio.
Inicia-se uma abertura lenta. Recuos e avanços.
Sai a anistia recíproca aceita pela ditadura. O movimento
das diretas atravessa e mobiliza o País. Finalmente,
os militares recolhem-se à caserna e o poder
é entregue aos civis. As sementes da Liberdade e da
democracia germinaram e hoje são tenras plantinhas
que precisamos fazer crescer cada vez mais.
Recordo desde a infância que nas solenidades em
homenagem aos 6 milhões de judeus mortos, vítimas
do nazismo, havia sempre uma faixa com os
dizeres – Não perdoar e não esquecer … Hoje, entendo.
Não é uma questão de vingança. É uma questão
de Justiça. Os governos civis após o término da
ditadura – Sarney, Collor, Fernando Henrique e agora
Lula – nada fizeram para punir os torturadores e
assassinos. É preciso dar um basta a essa impunidade
ou aceitaremos passivamente a barbárie. Tortura
e assassinato são crimes contra a Humanidade, não
devem prescrever e têm que ser punidos.
Amigo Herzog, calaram a tua voz, mas não calaram
a tua mensagem. Descansa em paz. Tua esposa
e teus filhos sempre sentirão orgulho de você. Nós
também.
A letra do hino dos partisans na 2ª Guerra Mundial
diz em sua primeira estrofe:
Não digas nunca que este é o último caminho;
sob negras nuvens claro dia se desvenda.
Ainda há de vir o dia que sonhamos,
nosso passo ressoará – Aqui estamos.
Amigo Vladimir Herzog, aqui estamos e continuaremos
a caminhada.”

