As mães sempre choram

Da FOLHA

Por MARILIZ PEREIRA JORGE

  • Dizer que a mãe de alguém teve que chorar é brutal, mas carrega uma percepção cínica da realidade
  • Elas carregam, muitas vezes sozinhas, dores que não foram geradas por elas

“A mãe de alguém teve que chorar” foi a frase dita por um dos jovens acusados de participar do estupro coletivo de uma adolescentede 17 anos em Copacabana. Em um vídeo gravado no elevador do prédio, logo depois do crime, os cinco rapazes comentam o que aconteceu. A frase é brutal, mas carrega uma percepção cínica da realidade: quando algo assim acontece, a dor quase sempre chega primeiro às mães.

Chora a mãe da menina, porque a violência que alcança a filha acende um pânico conhecido: o medo que ela carregou no corpo e na cabeça a vida inteira agora se materializa da forma mais covarde. Recebe a filha ferida, tenta entender o que aconteceu e se vê diante de uma pergunta impossível: como proteger quem se ama de um mundo que parece desenhado para ferir mulheres? Há uma impotência que acompanha esse momento. Mães passam a vida tentando antecipar riscos, orientar, proteger. Ainda assim, a violência acontece.

Mas há outras mães nessa história. As dos acusados. Mulheres que olham para seus filhos e não reconhecem quem são quando estão com os amigos, quando acham que ninguém está olhando, quando se sentem parte de um bando. Existe uma dor silenciosa nessa descoberta. Não é apenas vergonha ou espanto. É também uma sensação profunda de derrota. Onde foi que eu errei? O que não percebi? Em que momento perdi meu filho?

maternidade vem acompanhada de uma cobrança permanente. Quando um homem faz algo monstruoso, a pergunta automática é sobre a mãe. Como criou esse filho? Que valores ensinou? Como se educar um homem fosse tarefa exclusiva de uma mulher.

Pais, escola, amigos, cultura, tudo desaparece da conta. A culpa encontra um endereço feminino. Por isso a frase dita no elevador soa tão perturbadora, porque ela expõe uma verdade cruel da nossa sociedade: homens produzem a violência, mas o sofrimento costuma parar no colo das mães. Chora a mãe da vítima. Chora a mãe do agressor. No fim, elas sempre choram. E carregam, muitas vezes sozinhas, dores que não foram geradas por elas.

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