Sem querer, Trump impulsiona livre-comércio

Do ESTADÃO

EDITORIAL

Protecionismo do presidente americano leva Europa a destravar dois acordos comerciais que se arrastavam havia décadas, com o Mercosul e a Índia, além de aproximar o Canadá da China

Emparedada pelo protecionismo do presidente dos EUA, Donald Trump, e pelo avanço da China sobre seus mercados, a União Europeia finalmente deixou mais de duas décadas de resistência para trás e assinou dois grandes tratados de livre-comércio em pouco mais de uma semana. Primeiro com o Mercosul, e mais recentemente com a Índia.

Embora haja, entre os europeus, uma oposição ruidosa contra os tratados, e disposta a lançar mão dos mais diversos subterfúgios para atrasar a implantação dos acordos, a realidade parece se impor.

O acordo entre os europeus e a Índia é ainda mais grandioso que o firmado entre a UE e o Mercosul, pois, além de atingir uma população mais ampla, de quase 2 bilhões de pessoas, envolve ainda áreas críticas, como defesa. Os talentosos profissionais indianos das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática também terão mais facilidade de acesso ao mercado europeu, que tenta se aproximar de EUA e China na corrida tecnológica.

Tal como no caso do Mercosul, produtos industrializados europeus ganharam maior acesso ao mercado indiano, que, pasmem, é ainda mais fechado que o brasileiro a determinadas importações. No caso dos automóveis, por exemplo, a Índia reduzirá gradualmente a tarifa de importação de impressionantes 110% para 10%.

A exemplo do Brasil, a Índia foi punida por Trump com um tarifaço de 50%. Em ambos os casos o porcentual é completamente arbitrário. No caso do Brasil, alegou-se que o País tinha superávit comercial com os EUA, quando na verdade tem déficit.

Já parte das tarifas sobre a Índia deve-se ao fato de o país importar petróleo da Rússia – coisa que realmente faz, a exemplo de tantos outros países que, a despeito disso, não foram sancionados por Trump por esse motivo. Enquanto estendia tapete vermelho para o autocrata russo Vladimir Putin, Trump punia uma aliada de longa data dos EUA, a Índia, sacrificando também a boa relação que desfrutava com o premiê indiano, Narendra Modi. Desmoralizadas por Trump, Índia e Europa agora respondem à altura, estreitando a relação por meio do livre-comércio.

Já o Brasil, maior economia do Mercosul, viu um Trump pressionado pela inflação voltar atrás em parte das tarifas descabidas que impôs a produtos brasileiros que os EUA não produzem em volume suficiente, como o café.

Os ataques constantes de Trump contra o vizinho Canadá, um parceiro histórico dos EUA, também levaram a uma aproximação impensável há pouquíssimo tempo: o primeiro-ministro Mark Carney não apenas foi o primeiro líder canadense a visitar Pequim desde 2017, como firmou um acordo com os chineses permitindo a importação de 49 mil veículos elétricos pela tarifa mínima de 6,1%. Carney também classificou o país asiático como “muito mais previsível” que os EUA.

Concebidas para fazer a “América grande novamente”, as tarifas de Trump têm provocado uma série de efeitos colaterais na vida dos americanos, como inflação e problemas para pequenas empresas importadoras. Ao mesmo tempo, no plano das relações externas, os EUA estão rapidamente implodindo o papel de liderança global que exerceram por décadas.

Apesar da perda de popularidade interna – diferentes pesquisas de opinião situam a desaprovação a Trump acima de 50% – e da credibilidade cada vez mais arranhada no exterior, o republicano segue ameaçando impor tarifas a qualquer um que não se sujeite a seus caprichos.

Inconformado com a recusa da França de se tornar membro de um obscuro Conselho da Paz criado por ele mesmo, Trump ameaçou cobrar tarifa de importação de 200% sobre os vinhos franceses.

Pouco a pouco, porém, as ameaças protecionistas vão perdendo o poder de persuasão, seja porque os países se anteciparam ao tarifaço exportando produtos antes da imposição das sanções, seja porque de uma ou outra forma têm criado alternativas, entre as quais a aceleração de acordos comerciais.

Nesse cenário, é fundamental que o Brasil siga perseguindo novas parcerias comerciais. Com tantos atores buscando livrar-se da armadilha criada por Trump, tem vantagem quem se posiciona primeiro para assinar acordos de livre-comércio. Sem querer, Trump deu impulso a esse processo.

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