Médicos sem especialidade

Do ESTADÃO

EDITORIAL

A proporção de generalistas salta de 25% para 40%, o que alerta para a formação médica

A proporção de médicos sem uma especialidade no Estado de São Paulo passou de 25%, em 2000, para nada menos do que 40% neste ano. Os dados são da Demografia Médica do Estado de São Paulo, elaborada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em parceria com a Associação Paulista de Medicina (APM) e a Secretaria de Estado da Saúde. São quase 80 mil profissionais, na maior unidade da Federação em população, sem formação em áreas como cardiologia, ginecologia, oftalmologia, ortopedia ou pediatria.

A oferta de vagas em residência médica, que não se confunde com uma especialização lato sensu, não acompanhou o ritmo de crescimento do número de graduados em Medicina. Em 2015, eram 47 faculdades no Estado , com 4.832 vagas autorizadas , e hoje são 87, com 10.455. Enquanto isso, o número de estudantes em residência passou de 12.791 em 2018 – data mais remota disponível no levantamento – para 15.524 em 2025. Metade deles é de fora de São Paulo. São ao todo 197 mil médicos no Estado, um crescimento de 67% em dez anos.

É bastante, mas não o suficiente. Não à toa, o presidente da APM, Antonio José Gonçalves, manifestou preocupação com “a abertura indiscriminada de cursos de Medicina e o crescimento acelerado do número de médicos generalistas”, enquanto não há vagas em residências para todos os formandos. Essa distorção na formação contínua, por óbvio, elevou a presença dos generalistas no atendimento à população, tanto na rede pública quanto na privada, o que, a priori, não é negativo. Se egresso de uma graduação de qualidade, esse profissional poderá prestar um bom serviço na área clínica.

Mas, como bem apontou o professor da FMUSP e coordenador do estudo, Mário Scheffer, há lacunas que só podem ser supridas por um especialista. Por isso, segundo ele, o Estado precisa de mais anestesiologistas, psiquiatras e intensivistas. Mas não só: para Scheffer, seria muito melhor ter sempre à frente da atenção primária um médico da família e comunidade, um pediatra ou um ginecologista. Se essa situação é preocupante no Estado de São Paulo, que concentra as melhores instituições de ensino e de saúde do País, imagine no restante do Brasil.

Nos últimos anos, o governo federal tentou impor uma série de regras para a abertura de cursos de Medicina dentro dos editais do Mais Médicos, a fim de garantir o mínimo de qualidade, de modo a ajustar demandas sociais e de mercado. Houve uma explosão de ações judiciais de instituições pleiteando e conseguindo a abertura de vagas de graduação, sem atender a nenhum dos requisitos dos editais, como o abstrato Plano de Implantação de Residência Médica.

Esse fenômeno, portanto, tem causas bastante conhecidas pela classe médica, pelas autoridades sanitárias e pelos gestores federais das áreas de educação e saúde. Talvez tenha chegado a hora de o Ministério da Educação (MEC) e o Ministério da Saúde elaborarem políticas públicas mais efetivas tanto em relação à abertura de vagas nas faculdades de Medicina quanto às vagas de residência médica. Até agora, esse trabalho de regulação falhou.

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