A atualidade de Renato e Cazuza

De O GLOBO

Por NELSON MOTTA

Ouvindo suas músicas mais políticas vejo que elas estão em perfeita sintonia com o Brasil dos últimos 40 anos

Sempre que penso que Cazuza morreu com 32 anos e Renato Russo com 36, imagino que certamente estariam vivos com os medicamentos anti-AIDS que surgiram pouco depois de suas partidas. No que eles teriam feito e continuariam fazendo hoje, na virada dos seus 60 anos, em plena maturidade criativa, cantando o amor e seus avessos, fazendo crítica social, crônica de costumes e certamente política e comportamento.

Desde o início, Cazuza e Renato foram os primeiros a falar abertamente de drogas e sexualidade, assunto tabu para a geração anterior, tanto para a direita no poder quanto para a resistência de esquerda, por motivos diferentes. Contra a moral e os bom costumes para a direita, expressão da decadência burguesa para a esquerda.

Desde “Que país é esse?” e “Geração Coca-Cola”, Renato mostrava sua forma de ver a política com sarcasmo e ironia. E Cazuza com “Brasil” (mostra a tua cara), uma das músicas mais fortes e debochadas dele e expressão política do Brasil de 1988. Entre uma e outra eles foram anárquicos e libertários, defenderam minorias e a individualidade, expressaram a liberdade sexual como revolucionária. E suas músicas continuam vivas.

De “Soldados” (1985), sobre o ambiente militarizado da ditadura e a sensação de vigilância e repressão, à cáustica “O teatro dos vampiros” (1991), Renato critica o “sistema” brasileiro: elite parasitária, crise política e falta de perspectivas da juventude. “Perfeição”, de 1993, é uma das mais agressivas e irônicas da Legião Urbana, sobre hipocrisia política, corrupção, descaso governamental e a crise moral brasileira. Atualíssima. Como “Índios”, sobre o genocídio indígena, e “Faroeste Caboclo” (1987), sobre a violência estrutural, a desigualdade, a falta de oportunidade, a marginalização das periferias.

Na produção torrencial dos seus últimos tempos, Cazuza soltou os bichos em músicas políticas devastadoras, como o hino “Brasil”, que foi a abertura da novela “Vale tudo”, em 1988, e voltou na versão de 2025, perfeitamente integrada após mais de 35 anos. E em “O tempo não para” (“tua piscina está cheia de ratos, tuas ideias não correspondem aos fatos… eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades”). Em “Ideologia” (“meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder, ideologia, eu quero uma pra viver”) escancarou a decepção de sua geração que iria mudar o mundo com a descrença na política.

Lembrando de Renato e Cazuza e ouvindo suas músicas mais políticas vejo que elas estão em perfeita sintonia com o Brasil dos últimos 40 anos, e tento imaginar o que eles estariam fazendo hoje, diante da polarização política e das lutas identitárias. Pedi para a IA e ela fez várias, baseadas nas letras mais políticas de Renato. Primeiro fez “Filhos do mesmo vendaval”, horrível, cheia de clichês. Depois pedi uma versão mais punk e veio “Estilhaços da nação”, e achei melhor parar.

Cazuza não teve melhor sorte. A IA mandou uma “República dos espertinhos” e desisti. O tempo não para.

Facebook Comments

Posts Similares

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.