Fraude no balanço, dívida confessada: crime continuado no Corinthians?

Há anos, o Blog do Paulinho alerta para a existência de uma dívida de R$ 100 milhões que o Arena Fundo FII cobra do Corinthians, mas que nunca figurou — ao menos como deveria (explicaremos) — no balanço do clube.
Pelo contrário: sempre foi negada.
O gestor do Fundo, até então — desde antes das obras do estádio de Itaquera — era a BRL Trust.

Confissão de dívida
Em 16 de julho de 2023 — há pouco mais de dois anos — o Arena Fundo FII aprovou, em reunião ordinária e extraordinária de cotistas, “por unanimidade e sem qualquer ressalva”, as contas dos exercícios de 2016 a 2021, que jamais haviam sido submetidas à votação.
Dez dias depois, a REAG, investigada sob acusação de lavar dinheiro para o PCC, substituiu a BRL Trust na administração das contas da Arena.
A entrada da empresa no negócio ocorreu pelas mãos de Adriano Monteiro Alves, irmão de Duílio “do Bingo”.
Na ata da reunião, consta o aval do Corinthians, com carimbo e visto do departamento jurídico.
Até 2021, as demonstrações do Fundo indicavam que o clube devia quase R$ 60 milhões — valor que, no balanço seguinte, saltou para R$ 100 milhões.
Uma pendência até então negada pelo Corinthians passou a ser reconhecida, sem que os conselheiros tivessem qualquer ciência do caso, já que o débito continuou ausente dos balanços oficiais do clube — situação que permanece até hoje.
Em 26 de julho de 2023 — dez dias após o Corinthians reconhecer a pendência milionária — foi realizada Assembleia Geral Ordinária e Extraordinária do Arena Fundo FII, gestor das contas do estádio de Itaquera.
Por unanimidade — ou seja, com o voto do próprio Corinthians — a REAG Administradora de Recursos Ltda. foi ratificada como nova gestora do Fundo.
Na mesma reunião, foram aprovadas as contas relativas ao exercício de 2022.
Desde então, a REAG não apresentou, não publicou e tampouco auditou os balanços do Arena Fundo FII referentes a 2023 e 2024.

Fraude no balanço do Corinthians
Ontem, em entrevista ao Estadão, a diretoria do Corinthians confirmou, pela primeira vez, o que jamais revelou ao Conselho Deliberativo ou em seus informes contábeis de maneira adequada — informação descoberta originalmente pelo Blog do Paulinho, a partir da contabilidade do Arena Fundo FII.
O Timão deve, de fato, R$ 100 milhões.
A novidade está na justificativa para a pendência, nunca antes contada: segundo a atual administração, o dinheiro foi desviado para o pagamento de outras contas da agremiação.
Quais contas? Ninguém sabe.
Diante da falta de transparência, é possível concluir que a manobra financeira ocorreu durante a gestão Duílio “do Bingo”, com provável conhecimento das áreas jurídica e financeira — e de dirigentes ainda mais poderosos que o cercavam.
Não há, em nenhum balanço do Corinthians, desde então, qualquer indicação sobre o uso real desses recursos.
Com isso, ficam comprometidas as demonstrações financeiras de Duílio, Augusto Melo e Osmar Stabile.
O que existe, sabe-se agora, é maquiagem contábil.
Nos balanços do Corinthians, os R$ 100 milhões foram acrescidos sorrateiramente, sem detalhamento, explicações internas ou divulgação externa, à dívida total do financiamento do estádio de Itaquera.
Se não é fraude, parece.
Evidência de crime continuado, pois a gestão Stabile — assim como, possivelmente, as de Augusto Melo e Duílio — demonstrou ao Estadão plena ciência da irregularidade, embora jamais a tenha comunicado aos órgãos fiscalizadores do clube.
É caso de polícia.
Urge o detalhamento do gasto de cada centavo desses R$ 100 milhões, com documentos devidamente rastreados e investigados.
Conforme apura o MP-SP, é notória a utilização de empresas de fachada para simular operações durante a gestão Duílio “do Bingo”.
É indispensável investigar também as razões pelas quais os presidentes posteriores não revelaram, até hoje, o que sabiam sobre o caso.

Dívida de R$ 100 milhões permanece em novo Informe
Informe Mensal do Arena Fundo FII, protocolado na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), apresenta, entre números preocupantes, a dívida referente aos calotes do Corinthians — confessados pela gestão Duílio “do Bingo” Monteiro Alves.
O montante atinge exatamente R$ 100.070.474,89.
Estranha redução (não detalhada) de R$ 5.958.697,11 sobre os R$ 106.029.172,00 apontados no documento anterior.
Há ainda pendências de R$ 74.501,86, discriminadas como “outros valores a pagar”, além de R$ 104.237,60 devidos à REAG, referentes à taxa mensal de administração do Arena.
No caixa do Fundo permanecem R$ 18.327.389,32, sem detalhamento de origem: R$ 12.871.809,04 aplicados em renda fixa e R$ 5.455.580,28 disponíveis em conta.
Até o momento, de forma estranha, o Arena Fundo não publicou o Balanço Financeiro dos exercícios de 2023 e 2024 — obrigação legal cujo descumprimento pode gerar sanções da CVM.
O Corinthians, controlador do Fundo, segue sem explicar a associados, conselheiros e torcedores não apenas os motivos do não detalhamento uma pendência de R$ 100 milhões, como também a falta de transparência fiscal e a operação nebulosa que substituiu a BRL Trust pela REAG — investigada por lavagem de dinheiro do PCC — na gestão das finanças do estádio de Itaquera.
