Por que o Corinthians não punirá seus dirigentes?

Enquanto a Justiça caminha para condenar dirigentes do Corinthians enrascados no escândalo Vai de Bet e o MP-SP investiga outros por desvios de dinheiro do clube, as apurações internas, que poderiam resultar na expulsão de todos, seguem a passos de cágado.
Todas as movimentações ocorrem no sentido do acobertamento.
Por quê?
A lógica indicaria, por exemplo, que a gestão de Augusto Melo faria questão de expor as falcatruas de seus antecessores — em tese, adversários políticos, assim como agora a de Stabile.
Mas a realidade é outra.
Estão todos interligados.
Nenhum deles escaparia de uma checagem mínima de antecedentes — tomando como base apenas a vida política alvinegra.
A Renovação e Transparência somente assumiu o poder, em 2007, porque Osmar Stabile, assessorado por Edgard Soares, manteve a candidatura de terceira via, responsável por votos suficientes no Conselho para derrubar o então favorito Paulo Garcia.
Se isso não tivesse ocorrido, a história do clube nos últimos quase vinte anos seria outra.
Não necessariamente melhor — mas diferente.
Andrés Sanchez pintou, bordou e enriqueceu, utilizando empresários de atletas como parceiros.
Gobbi permitiu que Duílio “do Bingo” se desse bem no escândalo Alexandre Pato, assim como outros espertalhões protegidos por sua gestão — entre eles Raul Corrêa da Silva, que entrou no clube como dono de um modesto escritório de contabilidade e saiu parceiro da BDO, assinando contrato com a Odebrecht justamente enquanto a construtora erguia o estádio de Itaquera.
Safo, Raul ainda conseguiria, anos depois, voltar ao poder como diretor de Augusto Melo, posando de crítico das finanças dos adversários — as mesmas que, no passado, haviam sido conduzidas por ele próprio.
Roberto Andrade saiu de vendedor de carros para dono de agência, em compra à vista e em dinheiro, ao mesmo tempo em que fatiou jogadores da base e escapou do impeachment ao lotear cargos importantes com o grupo de Paulo Garcia.
Nessa época, Augusto Melo era Renovação e Transparência — e aprontava na base do clube.
Quando Duílio assumiu a presidência, após nova administração de Andrés, que ampliou a dívida quase três vezes, fez o que dele se esperava: utilizou o clube para salvar a família, trazendo para perto de si, na diretoria jurídica, o advogado que, até então, lutava na Justiça para expulsá-lo — e a seus parceiros — de Parque São Jorge.
O sucessor tropeçou na largada.
Ainda assim, Augusto Melo foi defendido pelo Centrão (Chapas 82 e 83) até quase o dia derradeiro — grupo que se escora no poder desde 2007, seja ele qual for.
A prova está na atuação, neste momento, de Rozallah Santoro na diretoria financeira de Osmar Stabile, assim como na cessão do futebol aos caprichos do vice-presidente Armando Mendonça e de seu parceiro Fernando Alba — este, ex-diretor de Augusto, Andrés, Gobbi e cia. Ltda.
No passado, Felipe Ezabella, que agora ensaia uma espécie de Centrão 2.0 ao lado de ex-cartolas de Augusto, embolsou dinheiro do jogador Elias — de quem se tornou procurador — ao mesmo tempo em que acusava outros dirigentes de fazer o mesmo.
Na realidade, é tudo uma coisa só.
Eis o ponto.
A punição a um deles, ainda que mínima, resultaria em um efeito cascata de delações, traições e escândalos — razão pela qual todos preferem o acobertamento, ainda que em enorme prejuízo ao Corinthians.
O Sistema precisa se proteger para continuar existindo.
Romper esse ciclo vicioso de compadrios é o desafio de um clube que, há anos, amarga a irrelevância esportiva, o parasitismo social, o açoitamento de sua imagem — hoje ligada ao crime organizado — e o descalabro financeiro, na contramão do enriquecimento pessoal de seus dirigentes.
