Por que levar um filho para as ruas

Da FOLHA

Por GIOVANA MADALOSSO

  • Tem coisa mais importante a se desejar do que um Nike. Ou um like
  • Antes de botar a bandeira nas costas, é bom se certificar de que você não está do lado sombrio da avenida

Enquanto você lê esse texto, estarei com minha filha nas ruas. Ou me organizando para ir com minha filha para as ruas. Ao meu lado, outros pais levando seus filhos para as ruas.

Talvez a manifestação seja grande, talvez nem tanto. Talvez dê resultado, talvez não faça diferença. E até isso pode ser útil para minha filha entender que ir para a rua não é um investimento com garantia de lucro.

Provavelmente não terá sido fácil convencê-la a sair do sofá –nem para mim terá sido fácil ter saído. Talvez eu tenha tido que argumentar. Lembrar que as vezes é um esforço necessário, como arrumar os armários. Tentar botar alguma ordem nessa casa sempre virada de nome Brasil. Talvez ela tenha questionado: o que eu tenho a ver com essa sujeira toda?

Bom momento para explicar que, infelizmente, todos temos a ver. Ou, felizmente, todos temos a ver, já que isso aqui ainda é uma democracia. Que vamos para as ruas por nós e pelos que não podem ir. Que vamos até por aqueles cujos direitos detestamos ter que defender.

Antes de botar a bandeira nas costas e sair por aí, é bom se certificar de que você não está do lado sombrio da avenida. Que não está apoiando quem tenta safar os próprios crimes, quem tenta dar golpe e regolpe, quem instiga sanções contra o próprio país, quem vangloria estados autoritários ou genocidas.

Já pensou quanta grana o coitado do filho teria que gastar de terapia? Mamãe me levou para apoiar a PEC da Bandidagem e uma malfadada anistia. Eu estava lá quando pediram a volta do fascista que por fim dilapidou todos os nossos direitos. Gritei forte pelo desmatamento que nos garantiu esse escaldante futuro.

Voltando para essa calçada: como é bom andar no meio da muvuca e lembrar que, apesar do cansaço, ainda estamos aqui –e porque estamos aqui, alguns parlamentares que votaram a favor daquela PEC já declararam se arrepender.

Claro que ninguém espera de uma mãe com uma filha um desempenho de Mahatma Gandhi. É possível que, enquanto você lê esse texto, já tenhamos largado tudo por uma garapa. Já tenhamos nos desvirtuado da multidão porque encontramos um banco na sombra, um camelô ou alguns amigos nos seduzindo com promessa de um macarrão de domingo.

Quando o assunto é ir para as ruas com filhos, não importa a assiduidade, não importa o tempo de permanência. Mesmo que seja de vez em quando, mesmo que seja dando uma passadinha. Nem que seja só para criar cultura.

Nem que seja só para lembrar ao filho que o mundo não é um shopping. Que direitos não vêm de bandeja. Que tem coisa mais importante a se desejar do que um Nike. Ou um like. Que a dor do sujeito ao lado pode ser maior do que a nossa. Que é importante honrar as conquistas dos que já se foram – e foram tantos. Que antes acreditar demais ou pagar de inocente do que ser dominado pelo cinismo ou pela apatia.

Que tempos agrestes vêm aí –de certa forma, nunca deixaram de vir– e que será mais fácil atravessá-los juntos do que sozinho. E que, com esse gesto aparentemente pequeno de ganhar a rua, às vezes ganhamos a quadra, o campinho, o grêmio da escola, eleições diretas, a queda de um muro, o fim de um regime e, com sorte, até um outro país. Ou pelo menos um par de coxas mais duras.

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