A magia do centro de São Paulo

De O GLOBO

Por JULIO MARIA

Nada de o deslumbramento passar. Sigo entorpecido. É como se algo mantivesse a mais perfeita ordem dentro do mais absoluto caos

Analistas freudianos diriam se tratar de complexo de inferioridade provocado por algum abuso na infância. Terapeutas holísticos chamariam de vibração de escassez. Espíritas não teriam dúvida: carma. Para os astrólogos, a culpa seria do meu capricórnio com ascendente em áries e Lua em leão, me levando com cautela (capricórnio) para o desconhecido (áries) com alguma chance de dar certo (leão). E os amigos que deixei em bairros-família do Oeste, como Pompeia e Perdizes, apenas cochichariam: “Coitado, pirou.” Afinal, trocar qualquer bunker seguro para viver no Centro de São Paulo só pode ser, para muitos, sinal de insanidade.

Pois cá estou há dois anos e, até agora, nada de o deslumbramento passar. Sigo entorpecido pelo Centro. Não pelo Centro recreativo de restaurantes, museus, baladinhas e casas de show. A coisa é mais séria. Amo o Centro, primeiro, por sua indomabilidade. Ao contrário das periferias conflagradas, onde o tráfico manda, e dos bairros de alta estirpe, onde os ricos fazem o mesmo que os traficantes, fechando ruas e criando ilhas monitoradas, o Centro não permite reis. Ninguém controla. Nem rico nem pobre, nem polícia nem bandido. É como se algo, uma força que não é o Estado, não é o PCC e não são os evangélicos, apesar de todos estarem ali também, mantivesse a mais perfeita ordem dentro do mais absoluto caos.

Amo profundamente o Centro por seu poder de absorção rápida a qualquer ser humano. Para pertencer ao Centro, basta estar vivo. Enquanto as periferias e a grã-finagem observam seus visitantes dos pés à cabeça com suspeita e vigilância, ao Centro são todos bem-vindos porque, só no Centro, somos todos estranhos. Gays da Love, héteros da Galeria do Rock, africanos da República, europeus turistas do Viaduto do Chá, clássicos vintage do Terraço Itália, pós-modernistas da Galeria Metrópole, sambistas da Dom José Gaspar, refinados raiz do Teatro Municipal, cults raiz do Copan, católicos do Pátio do Colégio, evangélicos da São João, ateus do Paissandu.

Coisa mais linda se dá duas vezes por dia, quando o Sol nasce e pouco antes de se pôr. Tudo entra em movimento e todos se misturam tornando-se uma massa de estranhos estranhamente iguais como não sei se existe em outro canto. E é ela que me leva à paixão número 3: só o Centro é impetuosamente honesto com a existência humana. Aqui, os prósperos são obrigados a lidar com realidades que só o Centro expõe. Por mais que virem os olhos para não verem o cracudo, seus ouvidos escutam. Se não escutam, seus corações sentem. Se não sentem, saberão que, ali dentro, algo morreu. Missão cumprida. Às vezes, essa é a única função de alguém que nos aborda no Centro: mostrar-nos a nós mesmos.

O Dona Onça, restaurante famoso e premiado por pratos expansivos em sabores e preços, fica logo ali, depois do corpo exposto de Pierre, o jovem gaúcho que dorme nas calçadas do Copan com seu cão Rei amarrado a uma corda. A Casa do Porco? Só atravessar a Ipiranga, depois daquele rapaz, Maicon, pedindo que lhe paguem uma Coca na banca de revista. Os night bikers chegam com suas máquinas de até R$ 60 mil para rolês nas ruas planas do Centro. Tomam cuidado para não se chocarem com os meninos da Gang da Bicicleta, acrobatas ágeis em subtrair celulares de mãos frouxas. Pensando aqui, não vejo Pierre, Maicon e nenhum outro morador das calçadas do Copan há um bom tempo. E temo por isso. O Centro só não mostra aquilo que não existe.

Facebook Comments

Posts Similares

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.