SP está irrespirável e sem candidatos à altura

Da FOLHA

Por THIAGO AMPARO

Propostas são insuficientes; falto plano mais robusto de contenção

Os candidatos a comandar a cidade com a pior qualidade de ar do mundo pelo terceiro dia consecutivo não têm a mínima ideia da seriedade necessária para evitar que São Paulo continue irrespirável. A começar pelo atual prefeito, Ricardo Nunes (MDB), cuja omissão —para evitar desgaste eleitoral— beira a obscenidade. Na terça-feira (9), Nunes não listou quaisquer ações de emergência. A capital conta com 1.523 notificações por síndrome respiratória aguda grave, incluindo 76 mortes. Questionado, ele apenas reiterou as promessas de campanha, e a prefeitura tão somente reafirmou que distribui água em tendas.

Os outros candidatos tampouco avançam muito. Plantar árvores em zonas ou corredores verdes, como propõem, não resolve a questão por si só. Boulos defende corredores verdes, Tabata promete parques e educação ambiental, ao passo que Datena e Marçal incentivariam a mobilidade sustentável. Mesmo supondo que de fato promoveriam essas políticas se eleitos (um grande “se”), todas as medidas, isoladamente, não são, a rigor, políticas de adaptação suficientes. Diante da inação da direita paulistana em enfrentar a crise, o campo progressista, espera-se, deveria vir com um plano mais robusto para convencer os eleitores de que se preocupa com o ar que respiramos.

Parâmetros internacionais —como os da iniciativa global Clean Air Accelerator— indicam que é possível criar resiliência nas cidades em torno do direito humano a um ar limpo. Zonas de baixa ou zero emissão de carbono; restrição à circulação de veículos pesados dentro da cidade; monitoramento constante da qualidade do ar atrelado a planos de emergência; incentivo à cooperação entre cidades e governos estaduais e federal; fornecimento de informações de saúde e sistemas de alerta à população; investimento em transporte coletivo de qualidade; e fiscalização severa da poluição estão entre as medidas possíveis.

Enquanto cabe ao governo federal investir no controle das queimadas de forma séria, ao Congresso reverter o negacionismo e ao agro parar de queimar, às cidades cabem garantir que o ar seja respirável; tema ainda rarefeito na campanha paulistana.

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