Deus nas Olimpíadas

Da FOLHA
Por HÉLIO SCHWARTSMAN
É estranho atletas cobrarem favorecimento pessoal de uma divindade de caráter universal, que não deveria, portanto, discriminar
A organização dos Jogos Olímpicos até tenta banir manifestações religiosas dos atletas, mas a taxa de sucesso não é das mais elevadas. Parece-me uma bobagem. Penso que cada um deve ser livre para comemorar a vitória, lamentar a derrota ou invocar proteções místicas da forma que preferir. Gostemos ou não, o ser humano é um bicho supersticioso.
Mas, se a ideia de proibir gestos religiosos soa-me tola, devo confessar que também fico atônito com a pretensão dos atletas de que podem ser favorecidos pela benevolência de uma divindade de caráter mais universal, como é o Deus das três religiões monoteístas, supondo que ela exista. Notem que essa ideia até que é compatível com deuses mais tribais, como era o caso dos gregos da Antiguidade que inventaram as Olimpíadas.
Ali, era perfeitamente normal que os deuses tomassem partido, inclusive em guerras. A crer em Homero, Hera, Atena e Posseidon eram escancaradamente pró-gregos, enquanto Afrodite, Apolo e Ares apoiavam os troianos. Zeus, o chefão, procurava afetar neutralidade, mas não deixava de fazer intervenções “ad hoc”. O problema surge quando esses deuses mais locais e antropomórficos dão lugar ao Deus único, no que é por vezes descrito como um importante passo ético da humanidade.
No Antigo Testamento, Jeová ainda é por vezes pintado como uma divindade local que seria só mais poderosa que outros deuses (e teria seu povo eleito), mas, à medida que o monoteísmo avança, ele vai se tornando um deus mais abstrato, que atua por regras, não por rompantes.
Quem aceita um deus desses não deveria esperar favoritismos. Não vejo como sustentar que Deus é essencialmente corintiano e odeia palmeirenses ou que favoreça o atleta A, injustiçando, assim, seu rival B. O competidor abraâmico que entra em campo pedindo proteção especial está negando o próprio caráter universal de seu Deus.
O ser humano é definitivamente um bicho supersticioso.
