A volta olímpica das polêmicas

Da OMBUDSMAN DA FOLHA

Por ALEXANDRA MORAES

Alimentadas por grupos ideológicos nas redes, controvérsias carecem de apuração

As polêmicas fazem suas próprias voltas olímpicas. Com mais de uma semana de idade, a controvérsia da abertura dos Jogos de Paris ficou íntima de quase todo mundo: a mesa emoldurada por drag queens e uma DJ gorda foi encarada como paródia da “Última Ceia”, e a coisa saiu do controle.

Pouco importava se havia brotado da mesma encenação o que se alega ser um Dioniso pintado como um Smurf. A indignação pegou a tocha e saiu pelas redes, passou pelos jornais e fez seu ciclo de volta alimentando fake news em perfis de rede social como a da atriz Regina Duarte.

Ainda que inflamada por políticos, a revolta com o que foi entendido como uma gozação com a ceia em que Jesus reuniu seus 12 apóstolos ainda parecia ter algum lastro de legitimidade –pessoas questionavam o que entendiam como natureza jocosa da apresentação.

Como escreveu Silas Martí nesta Folha, “as intenções por trás de uma performance ou obra de arte não neutralizam as leituras que o público fará delas”. O trabalho artístico se presta à interpretação do espectador, e se o Dioniso azul chegou tarde demais para evidenciar um festim pagão, paciência.

Mas houve falhas na maneira de narrar a história, sim, além de ao menos um erro objetivo na Folha. O jornal afirmava que “a abertura da olimpíada fez ‘sátira da Última Ceia’, inclusive mentindo que o organizador se desculpou pela sátira”, nas palavras do leitor Eduardo Pires. Um título da Folha dava conta de que a organização das Olimpíadas havia pedido desculpas pela encenação “da Santa Ceia”. Ocorre que o comitê jamais tratou o espetáculo como paródia.

Dois dias depois da publicação, o jornal reconheceu o equívoco, mas limitou o reparo ao título. O texto continuava a afirmar que a cena “parodiava o quadro “A Última Ceia'”… “Por qual motivo a Folha está escandalosamente embarcando nessa mentira eu não sei, mas considero isso um fato gravíssimo que me faz ter dúvidas sobre a confiabilidade de um jornal que para mim sempre foi confiável”, afirmou Pires.

O rótulo de firula ou de polêmica “das redes” pode contribuir para o desdém ao consertar problemas nesse tipo de cobertura. Leva tempo, ainda, para a digestão de tudo o que vem com essas manifestações. A apuração costuma demorar mais do que as reações, e há consequências em ritmo de vida real, não de rede social.

Na sexta (2), já uma semana depois da cerimônia, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, se pronunciou em defesa do diretor artístico e afirmou que a capital francesa sempre ficará ao lado dos artistas. Neste sábado, foi a vez de o presidente Emmanuel Macron tomar o lado do criador do espetáculo, que se tornou alvo de ameaças.

A França polarizada e enfronhada no momento pós-eleitoral apenas condensou muito do que se vive no resto do mundo, incluindo o Brasil. Questionou-se por que atacar o cristianismo, tido pelos próprios cristãos como “cachorro morto”, e não o islamismo, com referências aos ataques terroristas em solo francês e particularmente ao massacre no Charlie Hebdo.

Do outro lado, pessoas que saíam em defesa dos organizadores e artistas da cerimônia perguntavam: onde estão os “Je Suis Charlie”, aqueles que defendiam a liberdade de expressão? Só valia contra o ataque em nome de Maomé?

Quando finalmente o problema do banquete começava a arrefecer, outra onda de desinformação quebrava com uma nova polêmica. Era sobre a participação da pugilista argelina Imane Khelif e tinha resposta pronta do presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), que disse que não iria “participar de uma guerra cultural politicamente motivada”.

O problema é que o COI já estava em rota de colisão com a Associação Internacional de Boxe (IBA), comandada pela Rússia. No ano passado, essa associação banira Khelif e Lin Yu-ting (Taiwan), com o argumento de que elas não preenchiam critérios de gênero para lutar como e com mulheres.
No evento olímpico, porém, bastou um soco de Khelif na oponente italiana Angela Carini para dar fim à luta e início à proliferação de fake news sobre a argelina.

A Folha foi ágil para expor o problema em sua complexidade: “Caso da lutadora argelina vira guerra entre COI e associação e é apropriado pela polarização política”. Mas sites como G1, Metrópoles e a agência Aos Fatos foram mais diretos, com títulos que desmentiam postagens virais nas redes: “Atleta não mudou de sexo para disputar boxe feminino nas Olimpíadas“.

Esses são apenas dois casos estridentes de um evento com data para terminar. A polarização, por sua vez, não tem cerimônia de encerramento. Sua irrupção em temas e lugares inesperados, como mato no asfalto, é um desafio com o qual o jornalismo está aprendendo a lidar às cabeçadas.

Já se foi o tempo em que “fora do Twitter” essas polêmicas não existiam. Elas aprenderam a buscar as pontes para além das redes e influenciam comportamentos e reações (e votos). Seria arrogante ignorá-las, e ao jornalismo não cabe se abster do papel de explicar onde vivem e do que se alimentam esses monstrinhos.

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