Novos palcos para o extremismo

De O GLOBO

Por BERNARDO MELLO FRANCO

Fora do governo, bolsonaristas se organizam para transformar comissões da Câmara em trincheiras de guerra cultural

Caroline de Toni foi uma aluna esforçada de Olavo de Carvalho. O guru do bolsonarismo morreu, mas ela segue fiel à sua cartilha. Investe na radicalização ideológica, no armamentismo e na tática da guerra cultural.

A deputada do PL vai presidir a Comissão de Constituição e Justiça, a mais importante da Câmara. A escolha não é caso isolado. Fora do governo, a extrema direita se organizou para ocupar novos palcos. Comandará os colegiados que debatem educação, segurança, temas da família.

De Toni integra a bancada dos detratores do Supremo. Já acusou o tribunal de chefiar uma “ditadura judicial” e pediu a destituição do ministro Alexandre de Moraes. Seus ataques têm um quê de autodefesa. Ela era próxima ao ex-deputado Daniel Silveira, condenado por ameaças à Corte, e chegou a ser investigada por ligação com atos antidemocráticos.

Frequentadora de clubes de tiro, a olavista costuma divulgar fotos de fuzil a tiracolo. No ano passado, apresentou projeto para permitir que os estados legislem sobre a liberação de armas de fogo. A ideia já foi declarada inconstitucional.

A deputada gosta de fustigar minorias e movimentos sociais. Para acuar os sem-terra, propôs tipificar as ocupações como crime de terrorismo. Para assustar os indígenas, prometeu um “banho de sangue” se o marco temporal fosse derrubado. Ela ainda tentou revogar a cota mínima de 30% de candidaturas femininas. Alegou que “apenas uma parcela muito pequena das mulheres” se interessaria por política.

Nikolas Ferreira é o novo presidente da Comissão de Educação. Campeão de votos em 2022, ele topa tudo para fazer barulho nas redes. Já defendeu a legalização de partidos nazistas e foi à tribuna de peruca loura para debochar de transexuais.

O deputado se projetou ao fabricar polêmicas, espalhar notícias falsas e insultar rivais. Em sua gestão, problemas reais da educação, como a evasão escolar e os salários dos professores, devem perder espaço para espantalhos como “ideologia de gênero” e “banheiros unissex”.

O PL também se esmerou ao indicar o presidente da Comissão de Previdência e Família. O escolhido foi o deputado Pastor Eurico, que sonha em proibir o casamento homoafetivo.

O avanço da ultradireita tem sido descrito como mais um revés para o governo na Câmara. É verdade, mas isso não conta toda a história. A vitória do extremismo é uma derrota do Parlamento. Ganha a política do ódio, perdem a civilidade e a democracia.

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