Medo e delírio nos Estados Unidos

EDITORIAL DO ESTADÃO
As eleições nos EUA serão muito menos sobre economia, políticas públicas ou relações internacionais, e muito mais sobre qual dos dois candidatos é mais inapto para presidir o país
Como previsto, a rodada das primárias americanas conhecida como Superterça selou a reedição da disputa de 2020 entre Donald Trump e Joe Biden para a presidência. É difícil de acreditar, mas os eleitores de ambos os partidos escolheram o candidato com mais chances de perder para o seu adversário. Será uma disputa de rejeições.
Em uma pesquisa do Pew Research de 2023 sobre a percepção dos americanos a respeito da política nacional, 65% disseram se sentir frequentemente exauridos e 55%, enfurecidos. Só 10% expressaram sentimentos de esperança e 4% se disseram animados. Questionados sobre como descreveriam a política em uma palavra, as respostas variaram entre divisiva, corrupta, tumultuada ou ruim.
Em um aspecto, a falta de vigor da democracia americana é palpável, mensurável e até literal: a disputa entre Trump e Biden quebrará o recorde etário batido por Trump e Biden em 2020. Se Trump for reeleito, completará seu mandato com 81 anos. Se Biden for, terá 85. Ambos são impopulares. Em seus quatro anos na presidência, Trump nunca atingiu 50% de aprovação. Hoje, de acordo com uma pesquisa da Fox News, sua taxa de desaprovação, 57%, só é superada pela de Biden, 59%.
Previsivelmente, temas convencionais de disputas eleitorais, como a economia ou a política externa, ficarão em segundo plano, ou ao menos serão distorcidos e dilacerados pela disputa sobre qual dos candidatos é mais inapto para assumir o cargo mais relevante do mundo. Ambos acusarão um ao outro de representar uma ameaça existencial aos EUA tal como os americanos os conhecem.
A campanha de Biden multiplicará as imagens da invasão ao Capitólio do 6 de Janeiro e trará à tona incansavelmente os muitos processos criminais a que Trump responde na Justiça. Cerca de um terço dos eleitores republicanos diz que uma condenação desqualificaria Trump para o seu voto.
Muitos eleitores independentes são sensíveis aos alertas dos democratas. Eles estão genuinamente apreensivos com as agressões de Trump ao sistema democrático e veem Biden como um político razoável com tendências centristas. Mas também têm dúvidas se ele tem o vigor e as capacidades mentais para suportar o pugilismo de Trump, refrear os excessos dos esquerdistas radicais de seu partido e defender a República das ameaças internas e externas. E tanto seus temores quanto suas dúvidas são justificados. Três quartos dos americanos pensam que Biden é velho demais para um segundo mandato, e muitos estão sopesando a perspectiva da vice-presidente Kamala Harris, profundamente impopular e desacreditada, assumir a presidência.
Trump continuará a excitar nos eleitores republicanos um frenesi aterrorizante contra um Joe Biden “senil”, incapaz de proteger as fronteiras e conter a criminalidade, as mortes por overdose, a inflação, os delírios do identitarismo progressista e potências hostis como China, Rússia ou Irã. A “carnificina americana” a que Trump aludiu em seu discurso inaugural em 2017 serviu para intimidar os republicanos moderados quase como um chefe mafioso e conquistar vitórias sem precedentes com seus eleitores: três nomeações seguidas com um triunfo avassalador na última. O Partido Republicano é hoje o partido de Trump, e suas políticas orbitam em torno desse culto a uma personalidade imprevisível e irascível.
Contudo, todas as vezes em que se engajou em eleições gerais desde 2016, Trump acumulou reveses para o seu partido: 2018, 2020, nas eleições para o Senado da Georgia em 2021 e 2022.
Vença quem vencer, enfrentará severas dificuldades de governabilidade com um Congresso disfuncional e polarizado. Velhas pautas bipartidárias estão sendo pilhadas por ambos os lados como munição de uma guerra cultural que arrasta consigo mesma as mais consensuais políticas de Estado.
Se no ano passado os americanos se sentiam frustrados, irritados e assustados com a política do país, neste ano as suas escolhas devem intensificar esses sentimentos. E tudo indica que eles só se agravarão na guerra de trincheiras que se desenha para os próximos quatro anos.
