Inteligência em transe

De O GLOBO
Por FERNANDO GABEIRA
Acontecimentos do 8 de Janeiro foram uma espécie de elefante invisível, embora a Abin tenha dito que sabia
No mês que vem, o golpe de 1964 faz 60 anos. Muita água passou pela ponte. Um dos instrumentos mais sinistros do período militar era o Serviço Nacional de Informações (SNI), uma polícia política cujo objetivo principal era vigiar os passos dos opositores do governo.
Com a redemocratização, o SNI foi extinto. Em tese, acabou a história de polícia política. Em seu lugar, haveria uma agência de informações destinada a produzir análises para as decisões estratégicas do governo. Soa bonito. No entanto, embora tenhamos superado o SNI, nunca chegamos realmente a dar importância aos grandes temas estratégicos.
O escândalo que estourou agora mostra como o governo Bolsonaro fez o serviço de inteligência regredir para muito próximo do período militar. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) bisbilhotava a vida de oponentes políticos e aliados sob suspeita. Ainda funcionava como babá dos filhos do ex-presidente. Para um deles, Flávio, chegou a elaborar uma defesa no processo das rachadinhas.
Tudo isso é muito grave, será apurado e dará algumas manchetes de jornal. No entanto Bolsonaro é o maior, mas não o único, culpado pela forte regressão.
Será que os presidentes do Brasil democrático fizeram realmente uso das análises da agência? Será que, na qualidade de consumidores, conseguiram apontar erros e impulsionar um progresso na coleta e formulação do material de análise? Da mesma forma, existe no Congresso uma comissão mista destinada a fiscalizar as atividades de inteligência. Será que funcionou mesmo?
Olhando para trás, lembro-me de episódios que escaparam à agência porque eram difíceis de conhecer, como o monitoramento do telefone de Dilma pelos americanos. Recentemente, outro fato difícil, mas constrangedor, foi revelado: havia tráfico de drogas para a Europa nos aviões da comitiva presidencial de Bolsonaro.
Se pudesse pautar a agência, creio que um bom deputado teria essa possibilidade, levantaria alguns temas que escapam. Estamos levando uma surra na tentativa de dominar o garimpo ilegal nas terras ianomâmis. Os militares venezuelanos exploram o garimpo do lado de lá, uma vez que os ianomâmis vivem nos dois países. Qual o verdadeiro quadro, o que fazer para negociar com Maduro e obter resultados dos dois lados da fronteira?
