A semana violenta da Folha

Do OMBUDSMAN DA FOLHA
Por JOSÉ HENRIQUE MARIANTE
Noticiário pesa, e editorial que normaliza bolsonarismo agride os leitores
Terça-feira (28), “Estudante de 13 anos mata professora a facadas em SP”. Quarta-feira (29), “Covid mata 700 mil e vitima grupos mais vulneráveis”. Não é toda semana que duas manchetes seguidas da Folha usam o mesmo verbo. Quem dera o problema fosse a falta de criatividade da Primeira Página.
O país é tão violento que fica difícil distinguir as várias ondas do problema. A memória sugeria que ataques em escolas estavam ficando frequentes, mas assusta saber que desde agosto do ano passado ocorrem mensalmente. A explosão de casos, afirmam especialistas, passa pelo isolamento da pandemia e o prolongado fechamento das escolas, mas também pela cooptação em redes sociais, jogos online, extremismo, misoginia e masculinidade tóxica. Mais de 700 mil morreram em decorrência do vírus, outros serão ceifados por esgarçamentos correlatos. Não é apenas o verbo que aproxima os noticiários.
No mesmo dia da tragédia da Vila Sônia, uma mulher de 28 anos invadiu sua antiga escola em Nashville, nos EUA, e abateu a tiros três crianças de 9 anos e três professoras. Carregava um rifle de assalto estilo AR15, semelhante ao HK que Jair Bolsonaro lamentou ter que devolver junto com as joias das arabias. HK é a marca alemã que deixou o mercado brasileiro em 2019 após pressão de acionistas; o produto da empresa, perceberam, estava sendo usado contra a própria população por um governo irresponsável. HK é o fuzil usado por um ex-PM para assassinar Marielle Franco. O garoto de 13 anos usou uma faca em São Paulo, mas tentou comprar uma arma pela internet. Como diria Elio Gaspari, ganha carteirinha de CAC quem não entendeu para o que serve o Estatuto do Desarmamento.
Será sempre difícil dissociar o bolsonarismo de sua atuação na pandemia, do atraso na vacinação, do descaso com a educação, do estrago ambiental, da violência armamentista, para ficar apenas em alguns pontos bem documentados de seu legado. A polarização política certamente piora a percepção. Daí a revolta de muitos leitores da Folha com o editorial “Bolsonaro de volta”, publicado na noite de quinta-feira (30) no site e alterado na manhã seguinte junto com a publicação de um Erramos.
No texto, que trabalha hipóteses sobre o papel do ex-presidente daqui para frente, o último parágrafo traz a seguinte assunção: “O bolsonarismo até poderia, se abandonasse a violência e o autoritarismo, liderar uma oposição saudável ao PT. Esse não é, infelizmente, o desfecho mais provável”.
O período já seria suficientemente polêmico, mas quis o acaso que um Erramos o magnificasse: “Por erro da Redação, foi publicada uma versão anterior deste editorial, com uma conclusão diferente da aprovada para a edição impressa”. A “conclusão diferente”, que as redes sociais salvaram e bombardearam de volta ao ombudsman, é a de que “o bolsonarismo pode dar vigor à política brasileira”. Ou seja, a intenção inicial do redator, ainda mais controversa, fora refreada, nutrindo a ideia de que a Folha é antipetista ou, pelo visto, bolsonarista.
Há diferença considerável entre as duas pechas, basta voltar ao começo da semana ou desta coluna. Ou a agosto de 2022, quando a Folha ruidosamente denunciava as investidas do bolsonarismo contra a democracia, e a espiral de fúria em escolas silenciosamente começava. “Se abandonasse a violência e o autoritarismo” continuaria não sendo opção, gritam agora os leitores.
