Livro sobre comportamento da Fiesp nas eleições presidenciais de 1989 desmente Octávio Costa

Recentemente, o Blog do Paulinho revelou que Octávio Costa, candidato a Presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), segundo o próprio (em entrevista ao programa Jogo do Poder, da CNT), teria testemunhado um golpe nas eleições presidenciais de 1989.

O jornalista garantiu que a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) bancou a campanha de Leonel Brizola para retirar Lula da disputa:

“Até o final (das pesquisas), Brizola estava à frente de Lula”

“Eu vivia em São Paulo na época e trabalhava no mercado financeiro. Muita gente no mercado financeiro, muito empresário, dizia o seguinte: ‘Como eu tenho que evitar a passagem do Lula para o segundo turno, eu vou votar no Brizola, eu vou apoiar o Brizola’. Inclusive financiaram a campanha do Brizola, Fiesp deu dinheiro pra campanha do Brizola em 89”

O objetivo seria facilitar a vida de Fernando Collor, o escolhido das elites.

Octávio, que somente contou essa história em 2018 (data da exibição do programa), se calou no período dos acontecimentos, configurando grave desvio ético para quem exercia a profissão de jornalista.

Por conta da importância do cargo em disputa, nas próximas eleições da ABI, o assunto foi retomado.

Há quem desconfie da versão de Octávio.

Entre os admiradores de Leonel Brizola, impactados com a história revelada, existe a certeza de que o jornalista em vez de omissão em 1989 teria praticado a mentira em 2018, talvez com objetivo de se fazer importante durante a entrevista.

É grande também a indignação pelo fato da impossibilidade do ex-Governador, que morreu em 2004, se defender.

Seja qual for a verdade – omissão ou mentira, trata-se de comportamento reprovável para quem pretende comandar a ABI.

Livro esclarecedor

O Blog teve acesso à obra “1989 – A Fiesp e os empresários na eleição de Collor” (2016), escrita por Ney Lima Figueiredo, consultor por muitos anos da entidade.

A publicação parece esclarecer a questão.

O livro faz um resgate histórico sobre o cenário pré-eleitoral e sobre a própria disputa de 1989 em meio a encontros realizados na Fiesp e a análises feitas sobre o evoluir dos candidatos nas pesquisas sob o ponto de vista dos empresários.

A cereja do bolo está no capítulo “A discussão pré-eleitoral na Fiesp”, relato de um encontro realizado em 25 de outubro de 1989 (portanto, bem antes do primeiro turno, que seria em 15 de novembro), transcrito na íntegra em 84 páginas.

Ida de Lula e Collor ao segundo turno foi prevista por empresários em outubro

No encontro, a partir de uma exposição de Figueiredo, empresários e políticos ligados ao mercado financeiro chegaram à conclusão de que Lula e Collor seriam os candidatos que deveriam disputar o segundo turno.

Entre os participantes do evento, estavam o então presidente da Fiesp, Mário Amato, o presidente do Banco Itaú, Olavo Setúbal, o presidente do Pão de Açúcar, Abílio Diniz, o ex-governador de Pernambuco, Roberto Magalhães (PFL), e um adversário histórico de Brizola: o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Nelson Marchezan (PDS-RS).

Marchezan disputaria o governo do Rio Grande do Sul em 1990, quando perderia por pouco a disputa no segundo turno para o candidato apoiado por Brizola, Alceu Collares (PDT).

Entre os jornalistas convidados a acompanhar a histórica reunião, estavam Leonardo Mota Neto e André Singer.

Coube a Singer um relato sobre a principal conclusão do encontro em matéria que foi manchete da “Folha de S. Paulo” em 26 de outubro, com o título “Fiesp prevê Lula e Collor no segundo turno”.

As pesquisas apontavam Brizola com baixos desempenhos em estados-chave para a eleição, com cerca de 2% em São Paulo e 6% em Minas Gerais, embora liderando as sondagens no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, estados que governara.

Lula, que disputava com Brizola a segunda colocação, teria um eleitorado melhor distribuído por estados e a perspectiva de crescimento na reta final, a partir de ações de boca de urna a serem realizadas pela militância petista.

Outro texto sobre o mesmo encontro, publicado no “Correio Braziliense” em 14 de novembro de 1989 (a um dia do primeiro turno), a partir de relatos que obteve de empresários, Leonardo Mota Neto foi além de Singer e apontou maior receio do empresariado com a possível ida de Brizola ao segundo turno, em comparação com a chegada de Lula à rodada final:

“A presença de Lula, porém, já não preocupa tanto os empresários quanto num primeiro momento das avaliações. Estão prevendo, inclusive, que essa disputa ao segundo turno acabará levando a massa votante a sufragar e eleger Fernando Collor. A alternativa Brizola os levaria a encarar o futuro com dados de alarme. Lula pelo menos tem equipe de 40 a 50 técnicos, economistas e políticos para formar o primeiro escalão de governo. Os nomes são publicados nos jornais, e são conhecidos. Brizola, por sua vez, só tem conhecido o seu ministro da Fazenda ideal, o deputado Cesar Maia. Dá mais tranquilidade ao empresário saber que Lula não manda tanto no PT, e que faz parte de um sistema colegiado onde há vozes ponderadas como a do deputado Plínio de Arruda Sampaio. Se é para absorver, que se absorva logo – pensa a Fiesp”.

Afogado em números

A comparação entre o resultado geral da eleição e os votos apurados em São Paulo torna ainda mais surreal a narrativa de Octávio Costa.

No cômputo geral, Collor obteve 30,47% dos votos, enquanto Lula ficou com a segunda vaga ao conquistar 17,18%. Brizola, com 16,51%, ficou na terceira colocação.

Em São Paulo, Collor obteve 24,39%, enquanto Lula foi o quarto colocado, com 17,46%. O candidato do PDT obteve a sétima colocação, com 1,51% (percentual inclusive inferior ao que as pesquisas apontavam quando do encontro realizado na Fiesp).

Como é possível um candidato supostamente apoiado por “muito empresário” de São Paulo, com a campanha financiada pela Fiesp, atingir somente 1,51% dos votos no Estado que sedia a Federação empresarial?

Eis o ponto.

A fala de Octávio Costa ao ‘Jogo do Poder’, em 2018, se tomada como verdade, por conta da omissão ao golpe testemunhado, desqualifica-o como jornalista; se mentirosa, conforme sugere a obra “1989 – A Fiesp e os empresários na eleição de Collor”, traria à tona um perfil ainda mais temerário, para não dizer lamentável.

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1 Comentário

  1. É novidade pra quem? Todo mundo sabe que a Globo, devidamente amparada por todos os segmentos “capitalistas”, fez campanha aberta pró Collor. Somente por isso ele ganhou, pois o povão nunca sequer havia ouvido falar nessa criatura. Sempre usaram de todo tipo de “propaganda” anti esquerda, ou anti Lula, é claro. Se a verdade não agrada, cria-se outra verdade. Verdade paralela.

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