Elza Soares e Mané Garrincha

Por ROBERTO VIEIRA
Era um inferno.
Além da fome.
Além miséria.
A tradicional família brasileira disse NÃO.
Pecado.
Mil vezes pecado.
Muito pior que Didi e Guiomar.
Pois Guiomar era discreta.
Didi um lorde.
Elza e Mané?
Nunca.
Se beijavam nas boates
Nas ruas.
No banheiro da seleção brasileira em Santiago.
Era muito amor para tanta gente mal amada.
Escândalos.
Falência.
Ataque miliciano na casa do casal.
Telefonemas com xingamentos.
P…
Q…..
Etc.
Elza e Mané, o casal mais odiado do Brasil.
A Alegria do Povo.
A voz do planeta fome.
Dizer que Elza e Mané foi love story.
É mentira.
Elza apanhou.
Mané quase matou os dois embriagado.
Dirigindo um carro.
Mas eles se amaram pra vida inteira.
Porque qualquer maneira de amor vale a pena.
Em um Brasil onde o amor é palavra abstrata.
Dura menos que os 90 minutos de futebol.
Menos que os 3 minutos de Lama.
Os 3 minutos de Eu sou a Outra.
Pois é.
Para quem acredita que Deus não joga bola com o universo.
Elza disse adeus nesse 20 de janeiro.
Mesmo 20 de janeiro no qual Mané se foi.
Elza e Mané.
Romeu e Julieta brasileiros.
Hoje?
Tem samba e amor até mais tarde no céu.
Hoje.
Dia de São Sebastião do Rio de Janeiro.
João vai dormir sossegado.
